O período chuvoso em Salvador já começou a dar sinais antes do previsto. Na última semana, o volume de chuva registrado na capital baiana superou a média esperada para todo o mês, antecipando um cenário típico de maio, historicamente um dos mais chuvosos do ano na cidade.
A tendência é de que os acumulados sigam elevados nas próximas semanas. De acordo com projeções meteorológicas, há possibilidade de atuação de um evento de El Niño em sua forma mais intensa, conhecida como “Super El Niño”, que pode influenciar o regime de chuvas com maior irregularidade — alternando períodos de precipitações intensas e estiagens.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial. Quando ocorre de forma mais intensa e prolongada, pode provocar impactos climáticos em diversas regiões do mundo, incluindo o Nordeste brasileiro. A última ocorrência de maior intensidade foi registrada em 2015.
Naquele ano, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Salvador registrou, apenas no mês de maio, um volume de chuva 60,5% acima do esperado, com acumulado de 577,7 mm, frente à média histórica de 359,9 mm. O período foi marcado por transtornos e ocorrências graves relacionadas ao excesso de chuvas.
Para este ano, a previsão é de acumulados acima da média climatológica de maio, estimada em 302,2 mm. “Eventos mais intensos podem ocorrer de forma pontual, principalmente associados a sistemas costeiros. As chuvas recentes já indicam o início do período mais ativo, então, na prática, o período chuvoso já começou”, afirma Gabriel Pugliese, coordenador do Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (Cemadec).
Segundo o especialista, embora haja indicativos da atuação do El Niño, é importante evitar associações diretas entre o fenômeno e a ocorrência de desastres. “Ele influencia os padrões de chuva, mas não determina sozinho os impactos. Fatores como intensidade, duração, condição do solo e vulnerabilidade urbana também são determinantes”, explica.
A Defesa Civil destaca ainda que o município vem ampliando investimentos em obras de contenção de encostas, drenagem e estabilização de áreas críticas, com o objetivo de reduzir riscos durante eventos extremos. “Esse conjunto de intervenções busca diminuir tanto a exposição da população quanto a suscetibilidade das áreas mais vulneráveis”, completa Pugliese.
Especialistas também chamam atenção para um cenário mais amplo de mudanças climáticas, que tem contribuído para o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos. A expectativa, segundo eles, não é necessariamente de chuvas constantes, mas de episódios mais concentrados e severos ao longo do período.