“Nosso Segredo”: filme vencedor de Gramado estreia nesta quinta (27) com reflexão sobre segredos, luto e dor

“Nosso Segredo”: filme vencedor de Gramado estreia nesta quinta (27) com reflexão sobre segredos, luto e dor

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

José Mion/Alô Alô Bahia

Divulgação

Publicado em 27/08/2026 às 09:22

Há frases que parecem acompanhar um filme inteiro, mesmo quando são ditas logo nos primeiros minutos. Em “Nosso Segredo”, estreia de Grace Passô na direção de um longa-metragem, uma delas vem da voz de Mateus Aleluia, baiano, integrante histórico dos Tincoãs e dono de uma presença que, por si só, carrega memória. “Há coisa que a gente sabe e não quer saber”, diz seu personagem, Marcelo, durante uma conversa com Gilson, motorista de aplicativo interpretado por Robert Frank.

A frase é simples, quase cotidiana. Mas, em “Nosso Segredo”, ela abre uma porta para tudo o que vem depois. Porque talvez o filme de Grace Passô seja justamente sobre as verdades que estão diante de nós, mas que escolhemos não encarar. Não por falta de entendimento, mas porque saber, às vezes, exige uma consequência. E há dores que parecem mais suportáveis quando permanecem escondidas, guardadas em algum canto da casa, da memória ou de nós mesmos.

“Há coisa que a gente sabe e não quer saber”, diz personagem de Mateus Aleluia nos primeiros minutos de filme

O longa acompanha uma família negra que tenta reconstruir a rotina após uma perda recente. Cada personagem encontra uma maneira particular de fugir do luto, enquanto o filho caçula guarda um segredo que pode levá-los a encarar as raízes de dores que parecem ir muito além daquela ausência. Aos poucos, o cotidiano se mistura ao estranho, ao fantástico e ao inexplicável, como se aquilo que não foi dito encontrasse outras formas de aparecer.

E é aí que a fala de Mateus Aleluia ganha ainda mais força. Há coisas que a família sabe. Há coisas que nós, espectadores, começamos a perceber. Há sinais, silêncios, gestos e ausências. Mas saber não significa necessariamente querer lidar com aquilo. Talvez seja essa uma das reflexões mais incômodas do filme. Quantas vezes passamos pela vida sabendo exatamente o que está acontecendo e, ainda assim, escolhemos adiar o confronto?

Nosso Segredo” não entrega tudo de forma mastigada. Pelo contrário, Grace Passô constrói uma narrativa de silêncios, estranhamentos e símbolos, deixando que a dor se manifeste também por aquilo que não consegue ser colocado em palavras. O luto não aparece apenas como tristeza. Ele ocupa espaços, muda relações, cria distâncias e parece contaminar até o cotidiano mais banal. É um filme que entende que a ausência de alguém não termina quando a vida precisa continuar.

Não à toa, o longa chega aos cinemas nesta quinta-feira (27) cercado de reconhecimento. “Nosso Segredo” foi o grande vencedor do 54º Festival de Cinema de Gramado, conquistando três Kikitos: Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. O filme também está entre os 15 títulos habilitados pela Academia Brasileira de Cinema a disputar a indicação do país ao Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional.

É uma trajetória importante para um primeiro longa de Grace Passô, artista já consagrada no teatro e que agora leva para o cinema uma linguagem muito própria. “Nosso Segredo” não parece interessado em oferecer respostas fáceis e talvez essa seja uma de suas maiores qualidades. Há filmes que explicam e este prefere insinuar, provocar e deixar algumas perguntas circulando mesmo depois dos créditos.

A fala de Mateus Aleluia volta, então, como uma espécie de aviso. “Há coisa que a gente sabe e não quer saber”. Talvez todos nós tenhamos alguma. Algo que deixamos no meio da rua, algo que atravessamos todos os dias fingindo não ver. Uma conversa adiada, uma dor que preferimos chamar de outra coisa. Um segredo que, de tão guardado, já deixou de ser segredo para se tornar parte da casa.

Nosso Segredo” fala sobre uma família em luto, mas parece alcançar algo muito mais amplo, que é a dificuldade humana de olhar de frente para aquilo que já sabemos. Porque, às vezes, descobrir uma verdade não é o mais difícil, mas admitir que ela sempre esteve ali.

Compartilhe

Alô Alô Bahia Newsletter

Inscreva-se grátis para receber as novidades e informações do Alô Alô Bahia