“Muito Prazer” usa sexo, humor e tecnologia para falar sobre solidão nos cinemas

“Muito Prazer” usa sexo, humor e tecnologia para falar sobre solidão nos cinemas

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Fabio Rebelo

Publicado em 27/08/2026 às 09:58

Muito Prazer”, novo filme de Jorge Furtado, chega aos cinemas nesta quinta-feira (27) com uma premissa que, à primeira vista, parece apontar para uma comédia erótica. Há um motel decadente, câmeras escondidas, pornografia, sexo, voyeurismo e uma boa dose de tecnologia. Mas, como costuma acontecer no cinema do diretor de “O Homem que Copiava” e “Saneamento Básico”, a história logo toma outros caminhos, mais afetivos, absurdos e, sobretudo, humanos.

O ponto de partida é o Motel Pérola, um estabelecimento de outros tempos que tenta sobreviver em meio às transformações do mundo e dos próprios desejos de quem o frequenta. É nesse universo que o filme reúne personagens aparentemente desconectados, mas unidos pela mesma busca por alguma forma de afeto, prazer, dinheiro ou simplesmente companhia.

Jorge Furtado brinca com o que existe de mais contemporâneo nas relações, que é a exposição da intimidade, o sexo mediado por telas, o voyeurismo, a pornografia e até as novas tecnologias, sem transformar “Muito Prazer” em um manifesto sobre nenhum desses temas. O interesse do diretor esté menos em dar respostas e mais em observar como seus personagens se movimentam nesse mundo.

E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua principal qualidade. Por trás da proposta mais picante, “Muito Prazer” é, no fundo, uma comédia sobre solidão. Sobre pessoas que vivem cercadas por imagens, possibilidades e conexões, mas que continuam procurando algo que a tecnologia, o dinheiro ou o desejo imediato não conseguem entregar com tanta facilidade.

Samantha Jones, Jorge Furtado, Daniel de Oliveira e Luisa Arraes | Foto: Fabio Rebelo

O sexo está por toda parte, mas raramente é o objetivo final. Furtado revela o que acontece antes e depois dele, dos constrangimentos e das expectativas aos acordos, fantasias e à necessidade de ser visto, às vezes literalmente.

O elenco ajuda a sustentar essa proposta. Luisa Arraes transita com naturalidade entre ingenuidade, esperteza e malícia, enquanto Daniel de Oliveira se diverte ao brincar com uma imagem diferente daquela à qual o público está mais acostumado. A baiana Samantha Jones completa o trio central com presença e energia, contribuindo para que o filme não fique preso a uma única perspectiva.

Há, naturalmente, limitações nessa escolha pela leveza. “Muito Prazer” levanta questões interessantes sobre privacidade, exploração, trabalho, sexualidade e tecnologia, mas não chega a se aprofundar nelas. Para alguns, isso pode soar como uma oportunidade perdida, afinal, o filme tem em mãos assuntos capazes de render discussões mais espinhosas.

Mas talvez cobrar de “Muito Prazer” uma densidade que ele não pretende ter também seja uma forma de perder o jogo proposto por Jorge Furtado. O filme não quer ser um tratado sobre sexo na era digital. Quer, antes de tudo, ser uma comédia e uma comédia que encontra graça justamente na confusão dos afetos e nas contradições de personagens que tentam lidar com um mundo cada vez mais exposto.

O resultado é um longa que provavelmente vai dividir opiniões. Quem espera uma comédia erótica mais ousada pode se surpreender com a delicadeza do filme. Quem procura uma discussão profunda sobre inteligência artificial, pornografia e relações contemporâneas talvez saia querendo mais. Mas quem embarcar na lógica de Jorge Furtado encontrará uma história divertida e, em vários momentos, mais romântica do que seu ponto de partida sugere.

No fim, “Muito Prazer” usa o sexo como porta de entrada para falar de algo bem menos explícito, que é a dificuldade de se conectar de verdade com o outro. Em uma história cheia de gente querendo olhar e ser olhada, o que todos parecem procurar é alguém que realmente os enxergue.

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