O trabalho do ator e manipulador de marionetes James Ortiz em “Devoradores de Estrelas” antecipou uma questão para a próxima temporada de premiações: até que ponto performances não humanas ou mediadas por técnicas como marionetes, dublagem ou captura de movimento podem disputar as principais categorias de atuação. Responsável por dar vida a Rocky, um alienígena aracnídeo que contracena com Ryan Gosling, Ortiz deve ser impulsionado pela Amazon MGM Studios na corrida ao Oscar como Melhor Ator Coadjuvante.
A performance, construída a partir de manipulação física precisa combinada à atuação vocal, rapidamente se tornou um dos elementos mais celebrados do longa dirigido por Phil Lord e Christopher Miller. O estúdio também articula campanhas em categorias como Melhor Filme, Direção e áreas técnicas, mas é justamente a presença de Ortiz que levanta o debate mais sensível da temporada.
Segundo a Variety, o trabalho é elegível ao Oscar dentro das regras atuais, já que manipuladores de marionetes estão sob jurisdição do sindicato SAG-AFTRA. Em outras premiações, no entanto, o cenário é menos uniforme: o Globo de Ouro não considera esse tipo de atuação elegível, enquanto o Critics Choice Awards não possui restrições explícitas e o BAFTA já demonstrou abertura ao indicar performances de voz, como a de Eddie Murphy por “Shrek” (2001).
A discussão evidencia a dificuldade histórica da indústria em classificar criações que transitam entre atuação, dublagem e inovação técnica. Também reacende a lembrança de um recurso hoje pouco utilizado pela Academia: o Prêmio Especial por Realização. Criado em 1972 para reconhecer feitos que escapavam das categorias tradicionais, o prêmio contemplou contribuições marcantes como a de Ben Burtt pelo trabalho sonoro, incluindo a criação de R2-D2, em “Star Wars”. A última vez que foi concedido foi em 1995, com “Toy Story”, antes da consolidação da categoria de Animação.
A defesa de parte da crítica internacional é de que a atual temporada pode ser um momento oportuno para resgatar esse tipo de reconhecimento. No caso de “Devoradores de Estrelas”, Ortiz e o designer Neil Scanlan desenvolveram uma dinâmica complexa para tornar Rocky expressivo mesmo sem rosto ou traços humanos convencionais, após ensaios detalhados com Gosling para definir movimentos e interações.
Ao longo das décadas, performances fora do padrão já tensionaram as regras das premiações, como a de Robin Williams em “Aladdin” (1992), que rendeu um prêmio especial no Globo de Ouro. Outros exemplos são Scarlett Johansson como a inteligência artificial de “Her” (2013), indicada ao Critics Choice, assim como Andy Serkis, o Gollum de “O Senhor dos Anéis”, que concorreu, em 2003, como Melhor Atuação Digital.