Tim-tim: mercado de vinhos local vem crescendo, marcado pela evolução do produto nacional

José Mion é jornalista, assessor de imprensa e escreve para o Alô Alô Bahia.

Com 200 dos 300 ingressos esgotados em apenas 24 horas, a primeira edição do Vinho Brasil, no dia 18 de agosto, é uma prova de que o mercado consumidor de vinho está a todo vapor e o respeito ao produto nacional também só cresce. O número de apreciadores de vinhos no Brasil subiu de 22 milhões em 2010 para 39 milhões em 2020, segundo dados da Wine Inteligence. Foram cerca de 17 milhões de novos consumidores que passaram a degustar a bebida com maior regularidade.
 
"A pandemia permitiu que o brasileiro provasse mais o vinho nacional, com a diminuição das importações e o aumento dos preços do vinho de fora. A grande resistência ainda é para provar, mas depois que prova, o consumidor fica satisfeito e surpreso”, analisa Eduardo Mateus, da Sala de Vinhos, responsável pelo evento, que contará com rótulos de 15 vinícolas nacionais e já não tem mais ingressos disponíveis.
 
Outro entusiasta do vinho na capital baiana, Rogério Sousa (abaixo), da Decanter, segue pensamento parecido. "Ainda somos um país jovem, mas as diversas tecnologias e a cultura do vinho no mundo fazem com que o Brasil, hoje, se torne um grande produtor e, certamente, no futuro, um grande consumidor", reflete o empresário, que anualmente realiza o Decanter Wine Day, marcado, este ano, para o final de outubro.
 
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"Os vinhos brancos e espumantes do Sul são reconhecidamente excelentes no mundo, isso já é um fato. Outras regiões vêm despontando, como São Paulo, Minas, até Goiás. No Nordeste, temos o Vale do São Francisco e, como mais um motivo para nos orgulhar, temos a Uvva, um projeto arrojado, que tem a cara do que somos, jovens como produtores de vinho", elenca Rogério.
 
A Uvva, inclusive, que teve dois rótulos recentemente premiados, apenas 3 meses depois de sua inauguração, estará entre as vinícolas participantes do Vinho Brasil. "O brasileiro está bem atendido de grandes produtores que exportam pro mundo todo", pondera Daniel Freire, da Vinking Wine Concept. "Aos poucos foi-se criando o costume, a cultura foi se adequando e, hoje, o vinho é essencial nos mercados, delicatessens, depósitos de bebidas... Hoje, você encontra vinho até nas lojas de conveniência em postos de gasolina", analisa.
 
Atualmente, 36% da população adulta prova vinho ao menos uma vez por mês, o que demonstra que, no Brasil, o mercado está conseguindo algo que muitos países ainda não conseguem, que é incrementar uma grande base de novos consumidores de vinhos, que buscam, cada vez mais, alternativas. Isso explica que, até destinos de praia, como Trancoso, que recebem visitantes de todo o mundo, tenham lojas especializadas, como a Grand Cru. E nesse cenário, surgiu a grande chance de fazerem as pazes com o vinho brasileiro, mesmo que uma pandemia tivesse que ter acontecido para isso.
 
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A “naturalização” cada vez maior do consumo também traz novos hábitos, já que o público começa a se abrir para a experimentação no oceano de oportunidades que lhe é oferecido. “O consumo de artesanais, naturais, orgânicos e sustentáveis se desenvolveu muito. E foi nesse tempo que o mercado de vinhos naturais no Brasil teve seu nascimento e evolução mais perceptível, saindo do hipernichado”, destaca Bernardo Goes (abaixo), da Virtuoso Vinho, especializada em produções de baixa intervenção, em que se respeita os estágios naturais da fermentação e conserva dos vinhos, criando mínimos ajustes quando necessário, sem buscar uma padronização.
 
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Para ele, um dos maiores entraves para o crescimento do setor ainda é a carga tributária. “Acredito que teríamos uma mudança no comportamento e no relacionamento com a cultura do vinho se taxássemos ele como alimento, assim como é feito em países como Portugal e Espanha. A regulamentação e os impostos de comercialização entre estados (ICMS) é também um fator que, muitas vezes, inviabiliza e encarece a comercialização, principalmente dos rótulos produzidos em escala humana, artesanais. São poucos os estados que conseguem produzir vinhos com qualidade e procedência semelhantes. O Brasil é um país gigante e deveria se aproveitar disso para facilitar a comercialização interna, se beneficiando dessa diversidade e não o contrário”, reforça.
 
“Moramos num país de dimensão continental, com distâncias muito grandes, com custos de logística muito altos, sem contar que a produção de muitas vinícolas locais ainda não é grande, então, elas não têm muita escala para baratear o preço”, concorda Eduardo (abaixo), que elenca o descaminho e a falsificação como outros grandes problemas. “O descaminho, que é uma realidade, faz com que os produtos argentinos, principalmente, cheguem aqui com preços subsidiados pelo contrabando e pela falta de pagamentos de impostos", diz o empresário, que ganha coro dos demais.
 
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"O mercado do vinho sofre muito com o descaminho, principalmente do vinho argentino, que entra pelas fronteiras sem a incidência de impostos, até vinhos falsificados. Isso atrapalha muito o empresário que paga seus impostos, que gera emprego e renda ", reclama Daniel (abaixo).
 
Para Rogério, o caminho para mudar esse e outros comportamentos é a educação. "Aqui na Decanter, entendemos que fomentar a cultura do vinho é o que traz mais resultado, que são cursos, palestras, degustações... Focamos na questão da educação, para que as pessoas possam entender que o vinho não é só glamour. O consumo tende a melhorar por conta do conhecimento", reforça, tendo apoio imediato de Bernardo.
 
“À medida que as pessoas têm acesso à informação, se tornam donas de suas decisões. Uma sociedade mais consciente e obviamente melhor desenvolvida, opta por melhores produtos, de melhor qualidade, origem e propósito. E compreende a necessidade da sustentabilidade para nosso presente e futuro”, destaca, criticando a falta de transparência no mercado.
 
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"A regulamentação da origem e procedência de cada rótulo não é transparente para o consumidor. Não se torna um mercado competitivo colocando produtos de qualidade e procedência completamente diferentes na mesma prateleira, sem a correta informação. Produzir uva é caro. Vinificar sem corrigir é perigoso, leva tempo e é preciso muito mais da vivência no campo do que na adega. Entupir de insumos enológicos cada garrafa é muito mais barato. E o resultado vira uma fórmula que chamam de vinho, cobram barato no varejo e o brasileiro muitas vezes acha chique e bom por não ter informação", explica.
 
Todos concordam que o momento é positivo e espaço para seguir crescendo existe de sobra no mercado local. “De uns 20 anos pra cá que começamos a melhorar e, nos últimos 10 anos, que passamos a ter produção que não deixa a desejar a nenhum deles (produtores do Chile e da Argentina)”, celebra Eduardo.
 
"O mercado de vinhos na Bahia, assim como todo o Nordeste, vem crescendo a passos mais largos do que o Sul e Sudeste. O Nordeste ainda é um vetor de crescimento muito grande, apesar de termos uma renda per capta que ainda deixa o consumo um pouco a desejar”, concorda Rogério.
 
No caso também dos vinhos de baixa intervenção, já existem cases nacionais de qualidade. “Encontrei produtores e parceiros incríveis que não deixam nada a dever em relação à qualidade dos seus vinhos, no cuidado com a terra e o produto final e ainda trazem consigo a nossa própria característica, nosso próprio terroir”, celebra Bernardo, que realiza, neste domingo (7), mais uma edição do seu projeto Janela Virtuosa, na Graça, com a chef Karine Poggio, também entusiasta dos “naturebas”, como são carinhosamente chamados.
 
Para ele, a faixa etária implica bastante no olhar para o vinho nacional. “Os jovens são os que menos se preocupam com a marca do seu vinho, são mais abertos a novas ideias, experiências, sabores e mais ligados em conceitos como sustentabilidade. Já o público mais maduro, acima de 60, é mais fechado e muitas vezes preconceituoso, às vezes tão reativos que nem querem provar”, lembra. "Acredito super no desenvolvimento da cena de vinhos brasileiros e hoje fico superfeliz quando vejo a carta da Virtuoso recheada de opções brazucas", celebra.
 
Gosta de vinhos? Então, se programe:
 
* Janela Virtuosa
Domingo, 7 de agosto, das 15h às 21h
R. Flórida, 85 – Graça
Entrada gratuita
 
* Degustação Zuccardi (eleita melhor vinícola da mundo)
Terça e quarta, 9 e 10 de agosto, das 19h30 às 21h
Grand Cru do Shopping Barra
R$ 160 por pessoa
 
* Vinho Brasil
Quinta, 18 de agosto, 18h
Congrats Hall, Av. Luís Viana Filho, 3230 – Paralela
Ingressos esgotados
 
* Decanter Wine Day
Quarta, 26 de outubro
Mais informações em breve
 
Fotos: Vitor Bremer (principal e Grand Cru), Iracema Chequer (Daniel Freire) e Reprodução/Redes Sociais. Edgar Azevedo. Também estamos no Instagram (@sitealoalobahia), Twitter (@Aloalo_Bahia) e Google Notícias.

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