Antes dos arranha-céus, o Maíza: conheça histórias do primeiro prédio residencial do Corredor da Vitória

Antes dos arranha-céus, o Maíza: conheça histórias do primeiro prédio residencial do Corredor da Vitória

Redação Alô Alô Bahia

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Gabriela Cruz para Alô Alô Bahia

@marcosrodrigues.arquiteto e Elias Dantas / Alô Alô Bahia

Publicado em 02/10/2026 às 16:46

Antes de o mar se tornar a vista mais disputada do Corredor da Vitória, o prestígio estava do outro lado da janela. Olhar para a Avenida Sete e acompanhar a vida em direção ao Campo Grande era um privilégio. No Edifício Maíza, essa preferência ficou desenhada na planta: os apartamentos da frente têm quatro quartos; os dos fundos, voltados para a Baía de Todos-os-Santos, três.

Quem conta é o administrador Luciano Torres, 67 anos, morador desde que nasceu e neto do advogado Walke de Araújo, que mandou construir o imóvel. Suas lembranças atravessam almoços em família, festas de Natal e varandas cheias no Carnaval.

Projetado pelo arquiteto Luís Arantes e concluído em 1950, o Maíza foi o primeiro edifício residencial do Corredor da Vitória. Seus seis andares surgiram numa paisagem de casas de famílias da sociedade baiana. Luciano lembra os Calmon e as famílias de Joaquim de Carvalho e de Pedreira entre os vizinhos daquela época.

No terreno, ficava a residência de seus avós. O advogado decidiu demoli-la e erguer o prédio, inicialmente destinado ao aluguel. A construção e a autoria do projeto estão registradas em estudo acadêmico disponível na UFBA. Segundo Luciano, o avô queria 12 andares, mas a prefeitura não autorizou porque o edifício ficaria mais alto que o Hotel da Bahia. A obra, conduzida por um mestre de obras, teria levado cerca de um ano.

Antes dos arranha-céus, o Maíza: conheça histórias do primeiro prédio residencial do Corredor da Vitória – foto: Elias Dantas / Alô Alô Bahia

O proprietário reservou o sexto andar para viver com a mulher, Maria Luíza, e as três filhas: Neuza, Moema e Ana Cristina. Da esposa veio também o nome do edifício: Maíza era seu apelido, conta o neto.

Era o único apartamento que ocupava toda a extensão do prédio, da avenida ao mar. As quatro salas e a dimensão dos ambientes despertavam a curiosidade de quem chegava. “Era a sensação de Salvador”, recorda Luciano.

Ali aconteciam os Natais e os almoços em família. No Carnaval, a varanda virava camarote. Quando o Campo Grande concentrava a festa, parentes e amigos se reuniam para acompanhar os trios. “Ficava lotado aqui de gente o dia inteiro.”

O cobiçado sexto andar teve, mais tarde, Joaquim Guanaes, irmão do publicitário Nizan Guanaes, como proprietário. Segundo Luciano, ele comprou a unidade, mas não chegou a morar e depois a vendeu. Nizan frequentava o endereço como colega de faculdade do administrador: ia estudar com ele e se impressionava com o apartamento.

Embora a vista para a rua fosse mais valorizada, o mar também tinha lugar nos planos do fundador. O neto conta que o avô mandou construir uma escadaria até a beira da baía, para quem quisesse descer e tomar banho.

Com o tempo, alguns inquilinos compraram suas unidades, e as filhas do casal constituíram suas famílias no edifício. Hoje, Luciano mora no quarto andar com a mãe, Neuza, de 92 anos, a única das três irmãs ainda viva.

“Eu sempre fui criado aqui. Meu avô, minha avó, minhas tias moravam aqui, meus quatro irmãos também moravam aqui”, conta. “Eu tenho um carinho especial.”

Entre os antigos moradores, ele lembra o diretor teatral Márcio Meirelles e Ana Maria Lisboa, conhecida pelos bolos de casamento que fazia, que ocupava um apartamento no térreo. O elevador, segundo Luciano, ainda é o da década de 1950. E a convivência entre os vizinhos continua sendo parte do encanto.

Vista do Edifício Maíza

Foi também essa atmosfera que conquistou Joyce Pascowitch. A jornalista e colunista paulistana encontrou o Maíza por acaso, no início dos anos 2000, quando estava a caminho do Carmo para procurar uma casinha para comprar.

Ao passar pelo Campo Grande, reparou no edifício e pediu ao motorista que desse a volta. Parou para conversar com o porteiro e perguntou se havia algum apartamento à venda. Havia. Saiu com um contato e o começo de uma relação que já dura mais de duas décadas.

“E aí foi o começo de um namoro que virou noivado e deu num casamento”, conta.

A arquitetura foi a primeira a chamar sua atenção. Joyce gosta de edifícios de época, construções baixas e lugares com personalidade. No Maíza, encontrou seu endereço para longas temporadas de verão e alguns feriados. Aos poucos, o vínculo se estendeu às portas ao lado.

“Eu gosto muito dos meus vizinhos, conheço a maioria deles depois de tanto tempo, e são pessoas muito especiais.”

Do apartamento voltado para o mar, desfruta de uma Salvador de descanso, encontros e caminhadas pelo bairro. Gosta das cafeterias, dos restaurantes, das barracas de frutas e de ter o que precisa por perto. “Dá para ir a pé no Teatro Castro Alves. Isso é uma bênção.”

Antes dos arranha-céus, o Maíza: conheça histórias do primeiro prédio residencial do Corredor da Vitória – foto: Elias Dantas / Alô Alô Bahia

Nas temporadas baianas, reencontra amigos e nada no mar do Yacht Clube. “Salvador representa muito na minha vida, representa um respiro, uma conexão com a terra, com o mar, com as estrelas, com a lua, com as pessoas que eu admiro muito.”

A sensação começa antes do primeiro mergulho, quando abre a porta do apartamento e pensa: “Ai, que delícia, hoje é apenas o primeiro dia de uma boa e longa temporada”.

Para quem também se encantou, ainda há uma porta a abrir. Segundo Luciano, o apartamento da frente no térreo está vago. Uma chance de fazer parte da história do Maíza.

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