A perda de um importante contrato levou uma indústria baiana a reinventar o próprio modelo de negócios e transformar resíduos plásticos em matéria-prima para a construção civil. Fundada em 2004, em Conceição do Jacuípe, a Realce Indústria de Produtos Plásticos, hoje comandada pelo empresário Tiago Motta, passou de prestadora de serviços automotivos para fabricante de produtos próprios e encontrou na economia circular o caminho para crescer.
Criada pelo pai de Motta, a empresa atuava na prestação de serviços para o setor automotivo até 2014, quando perdeu um contrato com uma sistemista da Ford. A partir daí, passou a fabricar mangueiras corrugadas, plafons de iluminação e baldes. O aumento do custo da resina plástica virgem acelerou uma nova mudança de estratégia, que passou a ser investir no reaproveitamento de resíduos para reduzir custos e garantir competitividade.
Atualmente, entre 80% e 90% do portfólio da empresa utiliza plástico reciclado ou componentes reaproveitados. Em 2025, a indústria reciclou cerca de 300 toneladas de resíduos e registrou faturamento de R$ 1,8 milhão. Para este ano, a expectativa é chegar a R$ 1,9 milhão.
“O discurso sobre reciclagem às vezes é muito abstrato. Mas quando você vê o frasco de shampoo que usou na sua casa transformado em uma mangueira corrugada que vai ficar na parede das residências por muitos anos, você visualiza o potencial e o retorno disso”, afirmou Motta em entrevista à Pequenas Empresas, Grandes Negócios (PEGN).

A Realce passou de prestadora de serviços automotivos para fabricante de produtos próprios | Foto: @rafaprofilms via PEGN
Com cerca de 52 funcionários diretos, a fábrica mantém uma rede de fornecimento formada por quatro cooperativas, que intermediam o trabalho de famílias de catadores em 18 municípios baianos. A matéria-prima também chega por meio de parcerias com indústrias e de pontos de entrega voluntária da comunidade.
Para melhorar a qualidade da triagem dos resíduos, a empresa firmou parceria com o Sebrae para capacitar os catadores na separação dos diferentes tipos de polímeros utilizados nos processos industriais. “Cada tipo de resina plástica serve para um tipo de produto. Esse trabalho com o Sebrae tem sido fundamental para que eles entendam por que precisam separar o material de forma diferente e a importância disso”, disse o empresário à PEGN.
A sustentabilidade também faz parte da operação da fábrica, que ocupa uma área de 2,5 mil m². Um sistema de energia solar atende entre 90% e 95% da demanda elétrica da unidade, gerando economia mensal estimada entre R$ 35 mil e R$ 40 mil. Além disso, a água da chuva captada pelo telhado é armazenada em um tanque subterrâneo e utilizada no resfriamento das máquinas industriais, investimento que, segundo Motta, já foi totalmente recuperado.
Com uma carteira ativa de cerca de 2 mil clientes na Bahia e em Sergipe, a empresa comercializa seus produtos por meio de 15 representantes comerciais, atendendo tanto o atacado quanto o varejo de materiais de construção. O próximo passo é ampliar os canais de coleta de resíduos em condomínios e residências para garantir maior oferta de plástico reciclável e aumentar a capacidade de produção.