O pôr do sol que pinta o céu da Baía de Todos-os-Santos com tons de cobre e ouro ganhou, nos últimos meses, um contraste indesejado em um dos locais mais icônicos para a sua contemplação: terraço do Cine Glauber Rocha. Pichações, danos e vandalismo passaram a ofuscar a beleza do local e, como resposta, o cartão-postal da capital baiana teve o acesso restringido.
A decisão, segundo o diretor Claudio Marques, não comercial, e sim uma tentativa de preservar o que ele define como patrimônio histórico e cultural da cidade. Agora, só quem adquiriu ingresso para algum dos filmes exibidos no cinema pode ter acesso ao local.
“Infelizmente, nos últimos meses, começamos a ter comportamentos que não condizem com o local”, lamenta o diretor em entrevista exclusiva ao Alô Alô Bahia.
“No contrato de concessão, uma das minhas obrigações é zelar pelo patrimônio histórico.” Medidas iniciais, como o reforço na segurança, não surtiram o efeito esperado. “Passamos a fechar o terraço de forma frequente, o que foi uma tristeza.”
A solução encontrada veio há cerca de três semanas: restringir o acesso ao terraço apenas a clientes. O resultado, segundo Marques, foi imediato.
“As pichações e depredações cessaram. Nunca mais observamos comportamentos não condizentes com o ambiente.” Para ele, a mudança devolveu ao espaço sua vocação original. “O Cine Glauber Rocha voltou a ter o ambiente acolhedor de sempre.”
O diretor também amplia o argumento para além da medida pontual. Ele lembra que o cinema é um dos poucos cinemas de rua do país e símbolo da cultura local. “Estamos aqui, desde 2008, para manter e cuidar do cinema”, afirma, citando o esforço de revitalização da região da Praça Castro Alves, antes marcada pelo abandono. “Tenho muito orgulho de ter devolvido o Glauber para a cidade.”
O gestor também rebateu críticas indiretas sobre elitização do espaço ao destacar os preços acessíveis. “Temos, diariamente, ingressos a R$ 9,00 ou R$ 10,00”, diz, acrescentando que estudantes da rede pública continuam tendo acesso ao terraço. Ele ainda ressalta a relevância cultural do cinema, que exibiu mais de 135 longas nacionais em 2025, sendo uma das espaços que mais projetam produções brasileiras no país.
Para finalizar, Marques questão de situar o papel do cinema na capital baiana. “O Cine Glauber Rocha é um cinema com público diverso em todos os sentidos”, afirma. Ele destaca a estrutura com quatro salas equipadas, além de café e livraria, e reforça o caráter democrático do espaço, que recebe desde famílias em matinês de domingo até estudantes da rede pública, com ingressos a preços populares. “Recebemos cerca de dois mil estudantes por mês”, pontua.