“Michael”: entre o espetáculo e o silêncio, cinebiografia chega aos cinemas do Brasil

“Michael”: entre o espetáculo e o silêncio, cinebiografia chega aos cinemas do Brasil

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

José Mion/Alô Alô Bahia

Lionsgate via IMDb

Publicado em 21/04/2026 às 10:00 / Leia em 5 minutos

A cinebiografia “Michael” chega aos cinemas baianos nesta quinta-feira (23) – com sessões antecipadas a partir de hoje (21) – como aquilo que se propõe desde os primeiros segundos, com os acordes iniciais de “Wanna Be Startin’ Somethin'”: uma homenagem. Bonita, grandiosa e, sobretudo, cuidadosamente protegida. O lançamento acontece três décadas depois de Michael Jackson gravar um de seus clipes mais emblemáticos em Salvador, o de “They Don’t Care About Us”.

Dirigido por Antoine Fuqua, o longa opta por um recorte que privilegia o auge artístico do Rei do Pop, encerrando sua narrativa em 1988, no momento em que o artista consolida sua carreira solo após um rompimento mais radical com o pai. É uma escolha que diz muito, tanto pelo que mostra quanto, principalmente, pelo que decide não mostrar.

Filme começa com o lançamento do Jackson Five | Foto: Glen Wilson/Lionsgate

A imagem de Michael é preservada com zelo. Não por acaso, a própria Paris Jackson, filha do astro, classificou o projeto como “açucarado”, questionando a veracidade de alguns elementos e fazendo questão de destacar zero envolvimento de sua parte na produção. Os conflitos mais espinhosos aparecem de forma lateral, quase como prenúncios, como a relação com medicamentos, insinuada após o acidente durante as filmagens de um comercial da Pepsi em 1984, e a já conhecida proximidade com crianças, retratada sob a ótica da generosidade e ingenuidade.

Nesse ponto, o filme encontra uma de suas metáforas mais recorrentes, a do Rancho da Terra do Nunca (Neverland Ranch), propriedade que abrigava um zoológico particular e que fazia referência direta ao universo de Peter Pan, a eterna criança. A ideia da “infantilização” de Michael atravessa a narrativa, mas sem aprofundamentos, um tema apenas sugerido, talvez guardado para um possível segundo ato.

Jaafar Jackson incorpora muito bem personagem do tio | Foto: Glen Wilson/Lionsgate

E ele pode, de fato, existir. Desde a produção, o estúdio Lionsgate considera a possibilidade de dividir a cinebiografia em duas partes, o que ajuda a entender por que este primeiro filme se encerra antes das maiores controvérsias da vida do artista. Fica a expectativa de uma eventual continuação mais crua, mas sem confirmações.

Nos bastidores, o envolvimento da família Jackson é determinante. John Branca, advogado histórico de Michael e co-executor de seu espólio, atua como produtor, enquanto diferentes membros da família, incluindo os quatro integrantes do Jackson Five além de Michael, participam direta ou indiretamente do projeto. Ainda assim, nem tudo foi harmônico, já que relatos indicam que Janet Jackson teria recusado colaborar com o filme e, após uma exibição privada, feito críticas contundentes à abordagem, gerando atritos com Jermaine Jackson, pai de Jaafar Jackson, protagonista do longa.

Cenas e performances musicais se destacam | Foto: Glen Wilson/Lionsgate

E é justamente Jaafar quem sustenta o filme com uma atuação magnética. Sobrinho de Michael, ele não apenas interpreta, mas incorpora. Há algo de orgânico em sua presença, que se explica também por sua vivência pessoal, embora tenha convivido com o tio de forma mais pontual, sobretudo em encontros familiares na casa de Katherine Jackson, em Encino, na Califórnia, onde cresceu. Sua performance encontra o auge nas recriações de números icônicos como “Billie Jean” e “Thriller”, conduzidas com rigor técnico e forte carga emocional.

Outro destaque é o trabalho de maquiagem, que acompanha com precisão a transformação física do artista ao longo dos anos. Sem caricatura, o filme constrói uma evolução gradual, perceptível em detalhes como a suavização do tom de pele e, sobretudo, nas mudanças no nariz, apresentadas em etapas que sugerem os procedimentos estéticos ao longo do tempo.

Estrelado Colman Domingo brilha como pai do protagonista | Foto: Glen Wilson/Lionsgate

O elenco de apoio, que inclui o sempre excelente Colman Domingo, com duas indicações ao Oscar, contribui para dar densidade dramática à narrativa, especialmente na relação conturbada com o pai, um dos poucos conflitos explorados com mais ênfase.

Mas é nas sequências musicais que “Michael” realmente se impõe. O filme respeita o tempo das canções, evita cortes bruscos e aposta na força das performances completas, transformando cada número em um pequeno espetáculo dentro da narrativa. Para fãs e amantes da música pop, há ali momentos genuinamente arrebatadores.

O preço dessa escolha estética e narrativa, porém, é a sensação de “higienização”. Ao suavizar ou adiar os capítulos mais controversos, o longa constrói um retrato incompleto, ainda que coerente com seu recorte. “Michael” funciona como um primeiro movimento, uma celebração luminosa de um talento incontestável, que deixa para depois, talvez, as sombras que também ajudaram a criar o mito.

Serviço:
Filme: Michael
Estreia no Brasil: 23 de abril de 2026
Direção: Antoine Fuqua
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, entre outros
Gênero: Cinebiografia/Drama musical
Duração: 127 minutos
Distribuição: Lionsgate
⭐⭐⭐½

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