Depois de dois anos históricos, com “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” entre os indicados ao Oscar, inclusive nas principais categorias, o cinema brasileiro vive um momento raro de prestígio internacional. A conquista inédita da estatueta em 2025 consolidou esse auge e ampliou a visibilidade das produções nacionais, que também vêm ganhando espaço em festivais e no circuito comercial.
O bom momento, no entanto, traz uma pergunta inevitável: é possível manter esse nível de presença global já mirando o Oscar 2027? A resposta, segundo profissionais do setor em entrevistas aos jornais O Estado de S.Paulo e O Globo, passa por cautela. Os dois filmes recentes já despontavam como fortes candidatos antes mesmo das estreias, impulsionados por trajetórias internacionais consolidadas de seus diretores e por passagens bem-sucedidas por festivais como Cannes e Veneza.
Para o produtor Rodrigo Teixeira, o cenário atual não deve se repetir com frequência. “Cinema hoje é o maior orgulho dessa nação. O futebol já não entrega o que o cinema está entregando”, afirmou. Apesar disso, ele pondera. “Eu não vejo o cinema brasileiro, nos próximos dois ou três anos, voltando para o Oscar ou ocupando uma posição de destaque como agora com esses dois filmes”. Segundo ele, trata-se de obras assinadas por cineastas com carreiras longas e reconhecimento global, algo ainda pouco comum no país.
A avaliação é compartilhada por outros especialistas, que apontam que chegar ao Oscar exige mais do que qualidade artística. Os produtores Caio e Fabiano Gullane destacam três pilares: “Uma história universal emocionante contada de forma muito singular, revelando a cultura e a identidade do país, uma execução técnica e artística impecável e uma estratégia de lançamento intensa, que consiga um festival grande como Cannes, Veneza, Berlim, Sundance”. Eles ainda ressaltam a importância de uma distribuidora forte nos Estados Unidos para sustentar a campanha internacional.
Além desses fatores, o crítico Waldemar Dalenogare acrescenta o peso das redes de contato e da capacidade de financiamento dos realizadores. “Não tem como não vincular a figura de Walter Salles à sua capacidade de mobilizar recursos, não apenas para fazer o filme que ele quer mas também para levar ao exterior. O mesmo dá para ser aplicado a Kleber Mendonça Filho”, afirma. Para ele, o desafio é ampliar esse alcance para além dos nomes já consolidados.
Outro gargalo está no mercado interno. Apesar do sucesso pontual de alguns títulos, a maioria dos filmes brasileiros ainda enfrenta dificuldades para atrair público local. Dados de 2026 indicam que mais da metade das produções lançadas no ano anterior não chegou a mil espectadores. Esse descompasso evidencia a necessidade de fortalecer a base local como condição para sustentar o crescimento internacional.
Para Ilda Santiago, diretora executiva do Festival do Rio, a equação passa por planejamento de longo prazo. “Continuidade e planejamento são palavras chaves nesse processo”, diz. “Distribuir o cinema brasileiro e internacional independente no Brasil é cada vez mais desafiador. Precisamos de uma campanha de longo prazo para trazer o público brasileiro de volta aos cinemas”, reforça.
O fortalecimento da indústria também depende de políticas públicas consistentes. Produtores defendem maior apoio do Ministério da Cultura, da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual para garantir financiamento, coproduções e estratégias de distribuição internacional. “O cinema contemporâneo brasileiro reúne qualidade artística, talento, qualidade técnica e está muito maduro pra competir em pés de igualdade com todas as cinematografias mundiais”, afirma Fabiano Gullane.
Nesse contexto, outro ponto levantado é a necessidade de transparência e organização institucional, especialmente na escolha do filme que representará o Brasil no Oscar. Para Dalenogare, o processo precisa ser mais aberto e debatido com o setor, além de contar com uma rede de apoio que compartilhe aprendizados de campanhas anteriores. “Isso é muito novo para o Brasil. Então, é compartilhar esse conhecimento”, explica.
Mesmo com incertezas, há sinais positivos no horizonte. Novos projetos de cineastas como Cao Hamburger, Anna Muylaert, Gabriel Martins, Carlos Saldanha, Carolina Jabor e Fellipe Barbosa chegam às telas ao longo de 2026 e podem surgir como candidatos competitivos. Ao mesmo tempo, o interesse internacional cresce, com a presença de representantes da Academia e eventos globais realizados no país.
Após mais de duas décadas sem indicações entre “Central do Brasil” (1999) e “Ainda Estou Aqui” (2025), o Brasil volta a ser observado com atenção pelo mercado global. Para especialistas, o desafio agora é transformar casos de sucesso em política de continuidade, reduzindo a dependência de nomes consagrados e estruturando uma indústria capaz de competir de forma consistente.