Muncab inaugura exposição com mais de 100 obras repatriadas de artistas afro-brasileiros

Muncab inaugura exposição com mais de 100 obras repatriadas de artistas afro-brasileiros

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Raquel Brito

Sora Maia/CORREIO

Publicado em 14/03/2026 às 09:00 / Leia em 6 minutos

Viajar é sempre bom. Conhecer o mundo, visitar lugares novos… Mas, depois disso tudo, o retorno para casa é especial. É com esse gostinho de volta ao lar que tem início a exposição “Inclassificáveis” no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), que teve início nesta sexta-feira (13) e segue até agosto. As entradas são gratuitas até o dia 23 de março.

A mostra apresenta o primeiro recorte de um conjunto de 666 peças que retornaram ao país em janeiro deste ano, com trabalhos de artistas negros baianos, cearenses e pernambucanos que estavam há décadas nos Estados Unidos – a maior repatriação de obras de arte no Brasil até hoje.

Esta primeira mostra pública do acervo conta com mais de cem peças, entre pinturas e esculturas, de artistas como J. Cunha, Babalu, Sol Bahia, Goya Lopes, Raimundo Bida e José Adário.

A expografia é assinada por Gisele de Paula e a identidade visual por Ranulfo Magalhães e M. Dias Preto. A curadoria ficou por conta de Jamile Coelho e Jil Soares, que tiveram como objetivo desafiar categorias historicamente atribuídas à produção artística negra. Segundo Jamile, que também é diretora artística do Muncab, o processo curatorial começou assim que a equipe recebeu a lista de obras que retornariam.

Ao declarar as obras inclassificáveis, a intenção é afastar a produção negra da ideia de primitivismo e ingenuidade, rótulos que esses artistas carregaram por tanto tempo no mundo das artes. Uma das formas usadas por “Inclassificáveis” para fazer essa separação é enaltecer os movimentos artísticos locais, mostrando que há, ao mesmo tempo, individualidade e coesão entre as obras.

“Tinha uma beleza muito importante para a gente trazer neste recorte, que eram as escolas não convencionais. Então, temos aqui a escola do Pelourinho, que traz essa narrativa do cotidiano voltado ao Pelourinho, mas também que busca memórias de infância dos artistas. A escola de Cachoeira, com Louco, Louco Filho, Mestre Mimo… Toda uma escola de escultores, com seu José Adário, que é um orixá em vida”, diz Jamile Coelho.

A exposição
“Inclassificáveis” é organizada em três núcleos. Logo ao entrar, o visitante se depara com uma obra ampla de J. Cunha, que marca o início do núcleo “Amor, Festa e Devoção”, que simboliza um momento de celebração. Ali, o objetivo é romper com a ideia de resistir e afirmar com a de existir e criar narrativas que perpassem a dor. Neste espaço estão obras como “Dia”, “Aurora” e “Noite”, de Babalu, e “Natal Feliz na Roça”, de Ivonete Dias.

No andar seguinte, as imagens do dia-a-dia são protagonistas. É o momento dos núcleos “Cotidianos” e “Escolas Invisíveis”, em que os artistas, a partir de trajetórias e linguagens diversas, mostram o forte vínculo com seus territórios, como o Pelourinho e cidades do Recôncavo Baiano.

Na contramão das experiências imersivas que propõem interações apenas com projetores e recursos sonoros, a exposição do Muncab traz imersão palpável. Uma delas chama atenção de cara no primeiro andar, em cores vibrantes e atmosfera lúdica. É uma versão em tamanho real da obra “Bois Tombados Pelo Patrimônio do Brasil”, em que árvores e animais ultrapassam a tela e tomam forma no museu.

O responsável pelas esculturas foi o artista plástico Bruno Wiw e sua equipe, que trouxeram tudo à vida em 12 dias, à base de esponja ignifugada, compensado e tela de galinheiro. “Aqui você não tem uma projeção, tem obras em 3D em uma outra linguagem. Você vai ao museu para ver uma obra de arte. Hoje você está vindo para caminhar sobre uma obra de arte, entre uma obra de arte. Está entrando no mundo do artista”, afirma Wiw.

A imersão continua na sala ao lado, em que as esculturas em ferro de José Adário são complementadas por um vídeo do artista forjando suas obras e pelo som das batidas da bigorna.

A gente também queria mostrar para o público como é esse forjar o ferro, um metal tão pesado, que através do fogo e da temperatura correta você consegue moldar, criar pássaros, criar ferramentas belíssimas. E como, por exemplo, você sacraliza o ferro, fazendo virar uma ferramenta para um orixá e faz conectar o Ayê ao Orun, o mundo físico ao espiritual”, explica a curadora Jamile Coelho.

‘Rematriação’
Se uma palavra crucial para esse processo é “repatriação”, desta vez o termo adotado foi outro: rematriação. O grande motivo é o protagonismo feminino que vem desde o retorno das obras até a construção da exposição.

É um trabalho coletivo. E ele é coletivo do ponto de vista institucional, que a gente precisou fazer uma uma colaboração com diversos ministérios e instituições para conseguir estabilizar que esse acervo esteja aqui, mas também é coletivo com toda equipe. A gente tem uma equipe majoritariamente feminina, os cargos de coordenação do museu são majoritariamente femininos. Então, eu acho que essa gestão feminina traz uma série de características para o museu, faz com que ele tenha esse cuidado de acolher, de pensar com o público”, afirma Cintia Maria, diretora-geral do Muncab.

A coleção fazia parte de um acervo privado organizado pelas norte-americanas Barbara Cervenka, artista plástica, e Marion Jackson, historiadora da arte. Diferente de outros processos de repatriação, as obras saíram legalmente do Brasil, e o retorno ocorreu por decisão consciente das colecionadoras, que optaram por devolver o conjunto ao país de origem.

“Barbara faleceu três dias depois da gente anunciar que a coleção entraria no Muncab. É como se fosse um fechamento de ciclo, porque, para ela, essa coleção vir para cá era muito importante. A gente agradece muito a elas, inclusive, por terem esse olhar naquele momento dos anos 1980 e 90 para esse acervo e por terem conservado tão bem. A gente teve apenas 39 obras que precisaram de restauro, e eram restauros muito tranquilos”, diz Jamile.

Veja algumas obras da exposição:

Obras da Exposição Inclassificáveis, no Muncab. Foto: Sora Maia/CORREIO

Obras da Exposição Inclassificáveis, no Muncab. Foto: Sora Maia/CORREIO

Obras da Exposição Inclassificáveis, no Muncab. Foto: Sora Maia/CORREIO

Obras da Exposição Inclassificáveis, no Muncab. Foto: Sora Maia/CORREIO

Obras da Exposição Inclassificáveis, no Muncab. Foto: Sora Maia/CORREIO

Obras da Exposição Inclassificáveis, no Muncab. Foto: Sora Maia/CORREIO

Leia mais notícias no Correio

Compartilhe

Alô Alô Bahia Newsletter

Inscreva-se grátis para receber as novidades e informações do Alô Alô Bahia