A escalada de denúncias de violência doméstica durante a pandemia de Covid-19 foi um dos pontos de partida para a criação da série documental “Estopim”, que estreia neste domingo (8), Dia Internacional da Mulher, às 21h, no Canal Brasil. Dirigida pela cineasta Ana Teixeira, de 33 anos, a produção investiga feminicídios e outras formas de violência de gênero em cinco episódios.
Em 2020, enquanto o isolamento social era adotado para conter o coronavírus, cresceram as denúncias feitas por mulheres ao Ligue 180, reflexo da convivência contínua com parceiros violentos. Ao mesmo tempo, estudos apontavam o agravamento das desigualdades de gênero, com a sobrecarga feminina entre trabalho, tarefas domésticas e cuidado familiar.
Foi nesse contexto que nasceu a ideia da série. “A pandemia escancarou a assimetria nas relações. Queria criar algo que não tratasse apenas das agressões físicas, mas também das violências simbólicas e dos fatores sociais e culturais que pavimentam o caminho para o extremo: o feminicídio”, afirmou a diretora em entrevista ao jornal O Globo.
A produção revisita casos de grande repercussão dentro do universo do true crime. Para evitar uma narrativa centrada em imagens violentas, a diretora optou por recursos visuais como animações e metáforas. “Não queria retratar o banho de sangue. Busquei uma abordagem mais lúdica, até para que o público consiga assistir até o fim”, disse. Ela também observa que mulheres representam cerca de 75% a 80% da audiência desse tipo de conteúdo. “Existe identificação porque são conteúdos didáticos, que ajudam a reconhecer situações de risco. É quase uma estratégia de sobrevivência”, analisa.
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O episódio de estreia, “Crimes políticos”, revisita os assassinatos da vereadora Marielle Franco e da juíza Patrícia Acioli, duas figuras que enfrentaram o poder das milícias no Rio de Janeiro. No documentário, a vereadora Mônica Benício relembra o impacto do crime e a onda de desinformação que se seguiu. “Havia a ideia de que se fez algo errado, aquele corpo merecia ser violentado”, afirma. Ela reconhece que o ambiente político segue hostil, mas diz que permanecer é uma forma de resistência. “Nossa coragem é uma escolha, sabendo das dores que isso nos impõe”, diz.
Nos episódios seguintes, a série examina crimes motivados por “razões conjugais”, analisando a violência sofrida por Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei Maria da Penha, e casos emblemáticos como os assassinatos de Ângela Diniz, Sandra Gomide e Eloá Pimentel. A análise aborda a cultura de posse e a romantização do ciúme.
O terceiro episódio aborda crimes sexuais e a chamada cultura do estupro, discutindo a descredibilização das vítimas. Já o capítulo “Crimes de ódio” amplia o debate ao incluir vivências de mulheres trans e lésbicas. A ativista Bruna Benevides lembra os assassinatos de Gisberta Salce e Dandara dos Santos como exemplos da violência agravada quando corpos fogem do padrão imposto de feminilidade.
O último episódio, “Crimes invisibilizados”, discute feminicídios que raramente ganham repercussão nacional, muitas vezes por fatores como classe, origem ou raça, afetando sobretudo mulheres negras, indígenas e rurais.
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