Paula Lavigne, produtora cultural e empresária, costuma brincar que sua função na família é “fazer contas e administrar tudo”. A frase surgiu depois de uma pergunta direta do neto Benjamin, de 5 anos, filho de Tom Veloso. “Você sabe fazer o quê, vovó? O vovô canta, toca, desenha. Você não faz nada?”, questionou o menino certa vez. A resposta veio com humor e síntese do papel que ela ocupa há décadas na cultura brasileira.
Aos 56 anos, a mulher de Caetano Veloso tornou-se também uma articuladora política influente. No fim do ano passado, esteve à frente da mobilização que reuniu artistas como Chico Buarque, Djavan e Paulinho da Viola em dois atos musicais na Praia de Copacabana contra a chamada PEC da Blindagem, proposta que buscava proteger parlamentares de prisões e processos criminais. Pouco depois das manifestações, a proposta acabou arquivada.
Ariana com oito planetas em Áries, como costuma dizer, Paula atribui à astrologia parte da intensidade e da disposição para agir. “Não tenho problema com essa coisa de ser a mulher do Caetano. Já fui mulher, já deixei de ser, e eu sou quem sou: boa produtora e boa empresária”, afirma, em entrevista ao caderno Ela, do jornal O Globo, para o qual também falou sobre política, família, feminismo, envelhecimento e a vida ao lado do cantor e compositor.
Sobre o Dia Internacional da Mulher, Paula avalia que há conquistas importantes, mas também retrocessos. “Muita coisa (a comemorar). Mas também muito o que aprimorar. Cármen Lúcia é a única mulher no Supremo Tribunal Federal e não vejo perspectivas de outras. Tivemos avanços muito pequenos e retrocessos muito grandes. A questão do feminicídio aumentou barbaramente nos últimos anos. Essa cultura de machismo, de violência e de agressão contra a mulher é um horror. Assusta. E acho que piorou muito com o governo de Jair Bolsonaro, a começar pela flexibilização de armas”, diz.
Apesar de ser apontada como uma das responsáveis pela mobilização que barrou a PEC, Paula diz não medir o próprio poder de articulação. “Eu sou produtora, todo mundo sabe que sou ativista. Mas sei o que é estar ao lado do Caetano. E acho que a gente se complementa. Ele não faria essa mobilização, ele não tem muita iniciativa para nada.” Ateia declarada, ela diz acreditar mais em energia e ação concreta do que em religião. “Sou muito pé no chão e acho que a gente tem que dar o nosso melhor aqui”, reflete.
Mesmo com a atuação política crescente, descarta disputar cargos públicos. “Rola até a aposta dos amigos: se eu me candidatasse e fosse eleita, quanto tempo eu ia durar? Um amigo fala duas horas, outro aposta em uma semana, um terceiro acredita em um mês. E eu ia durar pouco mesmo, porque gosto de fazer e, na política, as coisas não andam”, analisa.
Ao falar sobre menopausa, ela menciona mudanças no corpo e no desejo. “Fiz reposição, botei aquele chip e foi muito bom, mas agora proibiram todos esses chips. Então, passo um gelzinho. A mulher é refém dos hormônios”, afirna. Para Paula, as diferenças entre homens e mulheres ainda são evidentes. “Quando digo que queria ter nascido homem é porque eu vejo que a vida do homem é melhor. Eles têm Viagra, fazem implante de cabelo. Estão sempre em vantagem.”
Sobre o casamento com Caetano, ela esclarece um comentário recente feito na TV, de que não transavam mais. “Não, não é bem assim, o corte que fizeram deu a entender tudo errado. […] Ainda temos vida sexual ativa, sim, não é igual há 20 anos, mas temos”, garante. Ainda assim, pondera que há certa idealização sobre a sexualidade após os 50. “Acho que há uma romantização”.
Paula e Caetano ficaram separados entre 2005 e 2015. Segundo ela, a distância não funcionou. “Ele pediu para voltar logo depois que eu tinha feito uma cirurgia da hérnia e eu tive uma embolia pulmonar… Já quase morri algumas vezes na vida”, revela. Apesar das dificuldades, diz que a ausência tinha algo muito concreto. “Brinco com ele que o que eu mais senti falta foi dele tocando violão”.
Mãe de Zeca Veloso e Tom Veloso, Paula conta que buscou oferecer aos filhos algo que não teve na infância: rotina. Filha da psicanalista Irene Mafra e do advogado criminalista Arthur Lavigne, viveu parte da infância entre as casas dos pais. “Algo que não tive e que fiz questão de criar para os meus filhos foi rotina. […] Fui muito firme com a educação deles”.
Se a maternidade exigiu firmeza, a avó admite ser mais permissiva. “Ser avó é a coisa mais maravilhosa do mundo. […] Agora tem uma pessoinha chamada Benjamin que manda em mim”, brinca. Orgulhosa da nova geração da família, Paula acompanha de perto a carreira musical do filho mais velho. Zeca Veloso prepara o primeiro disco solo e se apresenta no festival Queremos!, em abril, no Rio, onde ela garante presença desde já. “Somos como uma família de circo, quando um vai se apresentar, todos vão também”, diz. Recentemente, Paula e Caetano prestigiaram o filho em apresentação com a OSBA, em Salvador, por exemplo.