A viagem tinha como propósito inicial explorar cenários românticos e paradisíacos. Empresária e produtora de eventos radicada em Trancoso, a baiana Mannu Carvalho retornava de um fam tour nas Ilhas Maldivas, focado na divulgação de destinos de lua de mel, quando fez uma parada estratégica em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O que seria apenas uma conexão estendida se transformou em uma longa e obrigatória espera.
A recente escalada militar no Oriente Médio, marcada pela ofensiva envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, alterou a dinâmica de um dos principais hubs globais de turismo e aviação, deixando milhares de passageiros em um limbo logístico.
Acostumada à efervescência de Dubai, Carvalho notou a mudança na atmosfera da metrópole nos últimos dias. A cidade, reconhecida pelo luxo e pelo trânsito intenso, desacelerou. “O comportamento mudou bastante. Até mesmo as pessoas que moram aqui e trabalham no hotel estão diferentes. Elas estão surpresas e assustadas”, relatou a empresária ao Alô Alô Bahia.
O volume de veículos nas ruas caiu visivelmente. A recomendação de segurança repassada por autoridades consulares é evitar áreas abertas: “É uma insegurança constante. Não dá para ficar passeando ou curtindo enquanto decidem se a guerra acaba ou se dão uma trégua para podermos voltar para casa. Não tem nada de tranquilo em estar aqui”.

Foto: Arquivo Pessoal
A imprevisibilidade é agravada por um vácuo de informações precisas, um sintoma comum em áreas afetadas por conflitos. Carvalho conta que as orientações oficiais muitas vezes divergem da realidade prática vivida na cidade. Rumores de que o governo local custearia a extensão da hospedagem de turistas retidos pelos cancelamentos de voos, por exemplo, foram rapidamente desmentidos nas recepções.
“A gente vai à recepção e os funcionários dizem que não é possível, que não estão sabendo disso. Não dá para confiar”, explica. O excesso de mensagens enviadas do Brasil também confunde os viajantes: “As pessoas enviam diversas informações distorcidas que não fazem sentido. Não sabemos muito bem no que acreditar ou o que fazer”.
Do ponto de vista psicológico, o controle emocional se tornou um esforço diário. A rede de apoio formada por mensagens de amigos e familiares traz conforto momentâneo, mas esbarra na dureza do cenário. A baiana descreve a angústia de acompanhar o painel do aeroporto: “Ontem alguns voos decolaram, mas nenhum para o Brasil”.
A oscilação entre a esperança de uma resolução rápida e o temor de uma permanência prolongada pesa. “Por mais que o país seja protegido, com um sistema de defesa muito apurado, eu não sou daqui. Não sei exatamente para onde ir ou como lidar com essa situação toda”, desabafou.
Diante do impasse no espaço aéreo, rotas alternativas de fuga começaram a circular entre os estrangeiros retidos, como a travessia terrestre para países vizinhos. Carvalho, no entanto, avalia o risco de uma manobra precipitada.
“Algumas pessoas estão saindo por Omã ou pela Arábia Saudita. Porém, você precisa abrir mão da segurança de estar em Dubai e pegar uma estrada via terrestre sem nenhuma garantia. É um mix de desejo e incerteza muito grande”, contou.
A empresária expressa frustração com o suporte diplomático recebido até o momento. Para ela, a resposta das autoridades brasileiras tem sido protocolar e insuficiente para a gravidade e o ineditismo da crise. “Mandaram a gente procurar a companhia aérea como se o problema do voo fosse climático. E não é um problema de chuva. Sinto falta de um suporte mais assertivo da Embaixada do Brasil para os brasileiros”, conclui.