Há dez anos, uma interrupção na programação da TV Globo anunciava uma notícia que parecia impossível de acreditar. Em 15 de setembro de 2016, a jornalista Renata Vasconcellos entrou no ar em um plantão para confirmar a morte de Domingos Montagner, então protagonista da novela “Velho Chico”. O corpo do ator havia sido encontrado preso às pedras nas proximidades da Usina Hidrelétrica de Xingó, em Canindé de São Francisco, em Sergipe.
Aos 54 anos, Montagner vivia um dos momentos mais importantes de sua carreira e dava vida a Santo dos Anjos, protagonista da novela “Velho Chico”, exibida pela Globo. A trama, estrelada também por Camila Pitanga, tinha o Rio São Francisco como um dos elementos centrais de sua narrativa.

Ator Domingos Montagner em Velho Chico / Reprodução: TV Globo
A tragédia no Rio São Francisco
Montagner estava em Canindé de São Francisco para as gravações da novela e aproveitou um intervalo entre as atividades para entrar no rio na companhia de Camila Pitanga. Segundo relatos divulgados na época, os dois perceberam a força da correnteza e a atriz tentou ajudá-lo, segurando sua mão. O ator, porém, acabou sendo levado pela água.
As buscas mobilizaram equipes de resgate durante horas. O corpo foi localizado posteriormente, preso entre pedras, em uma área de aproximadamente 30 metros de profundidade.
A morte aconteceu cerca de duas duas semanas antes da exibição do último capítulo da novela. A tragédia provocou comoção entre colegas de elenco, profissionais da televisão e espectadores que acompanhavam a trajetória do personagem na novela. O caso também alterou os rumos da produção. A história precisou ser concluída sem seu protagonista, enquanto a equipe lidava com a perda de um ator.
A memória permanece
Nesta terça-feira (15), colegas e amigos voltaram a lembrar o ator nas redes sociais. Entre as homenagens está a publicação de Luciana Lima, esposa de Domingos por 14 anos e mãe de seus três filhos, Leo, Antonio e Dante.
Em um texto publicado no Instagram, Luciana retomou a lembrança daquele 15 de setembro e escreveu uma mensagem emocionante.
“10 anos que você mergulhou no Rio São Francisco e não voltou como a gente esperava. Mas no dia que você encantou, o povo Fulni-ô, da aldeia onde você gravou, escreveu uma carta que me deu o sentido mais SAGRADO para essa passagem tão surreal e inesperada. E é isso, meu amor. Você não foi embora. Você nasceu de novo. Virou protetor. Virou rio, correnteza, luz na água. Virou infinito. Eu sigo falando com você, meu Amor. Do meu jeito, do nosso jeito. Nossa casa continua sendo nossa, continua sendo sua. Cada canto tem a sua memória”, escreveu na legenda publicação.
Ao falar sobre os filhos, ela também destacou que enxerga no trio características deixadas pelo pai. “Você está em mim, está nos nossos meninos: eles são o seu legado vivo, são a sua generosidade, a sua alegria, a sua sensibilidade. É em tudo que você nos deixou e nos ensinou que eu te vejo inteirinho neles. São 10 anos de uma saudade que ainda dói profundo, mas também de um amor que só cresceu. Um amor que me sustenta. Que nos sustenta!”
A publicação foi acompanhada por uma série de mensagens de artistas que conviveram com o ator. Entre elas está a de Camila Pitanga: “Todo amor desse mundo pra você e sua preciosa família”, escreveu a atriz, que também agradeceu à família pelo acolhimento recebido após o episódio.
Marisa Orth, Marcos Palmeira, Débora Bloch, Emanuelle Araújo e Maria Gadú também deixaram mensagens na publicação.
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Do circo aos grandes papéis na televisão
Antes de se tornar conhecido do grande público, Domingos Montagner construiu sua carreira a partir do teatro e do circo. A formação artística passou pelo curso de interpretação de Myriam Muniz e pelo Circo Escola Picadeiro.
Em 1997, ao lado de Fernando Sampaio, criou o Grupo La Mínima, dedicado à linguagem do palhaço e do teatro circense. A experiência no palco rendeu reconhecimento: o espetáculo “A Noite dos Palhaços Mudos”, de 2008, garantiu a Montagner o Prêmio Shell de Melhor Ator.
Na televisão, a estreia ocorreu em 2006, no seriado “Mothern”, do GNT. Posteriormente, passou por produções como “Força-Tarefa”, “A Cura” e “Divã”, até chegar à primeira novela, “Cordel Encantado”, em 2011.
Foi na pele do Capitão Herculano Araújo, em “Cordel Encantado”, que ganhou maior projeção na televisão. No ano seguinte, interpretou o presidente Paulo Ventura em “O Brado Retumbante”, seu primeiro protagonista em uma produção televisiva. A carreira seguiu com personagens como Zyah, de “Salve Jorge” (2012), e João Miguel, de “Sete Vidas” (2015). No cinema, estreou em 2012, com participação em “Gonzaga: De Pai pra Filho”, dirigido por Breno Silveira.
Em “Velho Chico”, Montagner chegaria a um novo patamar de reconhecimento. O personagem Santo, homem ligado à terra e ao rio, tornou-se seu último papel na televisão.

Cena final de Domingos Montagner — Foto: Reprodução/Arquivo via g1