Filha conta a fotojornalista sem memória como ele se infiltrou em máfia para denunciar trabalho escravo

Filha conta a fotojornalista sem memória como ele se infiltrou em máfia para denunciar trabalho escravo

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Gabriel Moura

Reprodução

Publicado em 24/08/2026 às 15:41

Um vídeo publicado por Ana Aurora Borges, filha do fotojornalista Antônio Gaudério, viralizou nas redes sociais ao mostrar a jovem contando ao próprio pai detalhes de uma das reportagens mais marcantes de sua carreira. Em 2007, o jornalista se infiltrou em um esquema ligado a uma máfia boliviana para investigar trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão no Brás, região central de São Paulo. Um ano depois, Antônio sofreu um acidente doméstico e perdeu a memória.

No vídeo, Ana inicia a conversa lembrando ao pai o que ele havia feito. “Pai, queria te contar do dia que você se infiltrou numa máfia boliviana para descobrir como é que funcionava os trabalhos escravos aqui no Brás, em São Paulo”, disse. Surpreso, Antônio perguntou: “Eu fiz isso?”. A filha então passou a reconstruir a investigação, desde a viagem à Bolívia até a entrada do jornalista no esquema de exploração.

Segundo Ana, Antônio procurou manter uma aparência compatível com a situação de vulnerabilidade econômica que precisava representar para conseguir trabalho. Ele levou uma muda de roupa e um celular antigo com câmera, adaptado para fazer registros escondidos. “Você quebrou todo o celular e deixou só a camerazinha aparecendo para poder tirar foto escondido e registrar tudo aquilo para poder denunciar”, contou. Na Bolívia, ele encontrou anúncios de emprego, conseguiu uma promessa de trabalho e cruzou a fronteira rumo ao Brasil ao lado de bolivianos que também buscavam melhores condições de vida.

Já em São Paulo, o fotojornalista teria entrado em um sistema no qual os três primeiros meses de trabalho não eram remunerados, com a oferta apenas de comida e moradia. Ana relatou que o pai enfrentou jornadas de até 17 horas e vivenciou situações de doença e problemas de saúde entre trabalhadores que comiam, dormiam e trabalhavam no mesmo ambiente. “Você contava que o que mais te impressionava é que tinham trabalhadores lá há 20 anos em um trabalho análogo à escravidão”, afirmou.

Antônio deixou o local depois de apresentar ao responsável pelo esquema uma ferida na cabeça provocada, segundo o relato da filha, pelas condições de higiene. Ele recebeu autorização para ir a uma farmácia comprar um remédio e decidiu não retornar. Dias depois, a reportagem “O preço de um vestido” foi publicada na capa da Folha de S. Paulo. Ana também contou que, após investigações desse tipo, o pai costumava levar para casa a foto dos criminosos envolvidos. “Esse cara está me procurando, se vocês verem ele na rua, se tranquem em casa e liguem pra Folha”, dizia à família.

Ao compartilhar o vídeo, Ana afirmou que a reportagem ganhou prêmios, tornou-se referência e foi estudada dentro e fora do país. “Meu pai não lembra por ter perdido a memória, e o Brasil insiste em esquecer que esse trabalho análogo à escravidão existe. Eu vou repetir quantas vezes forem necessárias”, escreveu.

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