Consagrada como uma das maiores nadadoras da história do Brasil, a baiana Ana Marcela Cunha realizou em julho um sonho que carregava desde a infância e a adolescência: atravessar o Canal da Mancha, que separa a França da Inglaterra. Aos 34 anos, a campeã olímpica completou o percurso de 42,9 km em 8 horas e 25 minutos, estabelecendo o recorde sul-americano da travessia, entre homens e mulheres.
Especialista em provas de águas abertas, com distâncias de 10 km e até 36 km, Ana Marcela encarou um dos maiores desafios de sua carreira. Para ela, a conquista tem importância comparável à medalha de ouro olímpica.
“Olimpíada é muito do alto rendimento e do que outras pessoas também esperam de você. O Canal da Mancha era algo muito pessoal. Os dois sonhos estão no mesmo patamar para mim, na mesma prateleira de importância”, afirmou a nadadora, à Quem.
Diferentemente das competições tradicionais, a travessia do Canal da Mancha foi marcada pela ausência de adversários e pela necessidade de passar horas nadando praticamente sozinha. A preparação de Ana Marcela teve foco maior em resistência aeróbica e alto volume de treino.
Segundo a atleta, o trabalho também foi importante para enfrentar o desafio psicológico de permanecer durante horas em mar aberto.
“Os treinos me ajudaram muito no fator físico, mas principalmente no fator psicológico. O mais difícil foi ficar nadando sozinha”, relatou.
O percurso originalmente estimado foi ampliado por causa das fortes correntes marítimas. Ana Marcela chegou a nadar 42,9 km durante a travessia, além de enfrentar o movimento das marés e a presença de grandes embarcações.
Apesar das condições adversas, a nadadora afirmou que estava preparada para os desafios do Canal da Mancha. A região é conhecida pela intensidade das correntes e pela movimentação de navios entre a França e a Inglaterra.
“Os cargueiros passando, os navios cheios de contêiner e aquelas coisas todas não me assustaram. A gente estava muito bem preparado esperando por tudo que poderia acontecer”, disse.
De acordo com Ana Marcela, a força das marés também contribuiu para aumentar a distância percorrida. A atleta explicou que o fluxo de água entre os períodos de maré alta e baixa dificultou a travessia.
A estrutura de apoio foi fundamental para que a nadadora mantivesse o ritmo e a concentração ao longo das mais de oito horas de percurso. O técnico e o guia eram responsáveis por transmitir informações sobre o tempo de prova, a distância percorrida e a frequência de braçadas.
As pausas para hidratação também seguiam uma estratégia definida previamente. A primeira aconteceu após 45 minutos de prova e, posteriormente, a atleta parava a cada 30 minutos.
“A comunicação foi feita pelo meu técnico e pelo guia, que foram me passando as coordenadas, falando quanto tempo tinha de prova, número de braçadas por minuto e quantos quilômetros eu já tinha nadado”, explicou.
Ana Marcela Cunha já mira os Jogos de Los Angeles 2028
Depois de concluir o desafio pessoal e estabelecer o recorde sul-americano do Canal da Mancha, Ana Marcela Cunha agora volta as atenções para a principal meta esportiva dos próximos anos: a disputa dos 10 km em águas abertas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.
A brasileira pretende iniciar novamente a preparação específica para a distância olímpica e buscar uma vaga na seleção brasileira.
“Agora a gente vira uma chave e retorna 10 km porque faltam dois anos para Los Angeles 2028. E fé em Deus que a gente vai atrás dessa vaga para representar o Brasil mais uma vez em busca de um excelente resultado”, concluiu.