A tradicional Festa da Boa Morte reuniu cerca de 100 mil pessoas em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, segundo estimativa da própria Irmandade organizadora do evento. Esse número é referente a apenas os dois principais dias de festa, sexta-feira (14) e sábado (15). O festejo, que tem mais de dois séculos de história e é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 2010, chega ao fim nesta segunda-feira (17).
Organizada pela Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, confraria religiosa afro-católica formada por mulheres negras, a festa reúne procissões, missas, alvoradas, cortejos e sambas de roda, além da distribuição de pratos tradicionais do Recôncavo, como feijoada, cozido e caruru. Esse ano, pela primeira vez, foram realizadas apresentações culturais em um palco montado próximo a sede do grupo religioso.

Festa da Boa Morte tem pelo menos dois séculos de história.
A programação teve início na última quarta-feira (12), com uma romaria e a reinauguração do Memorial da Irmandade da Boa Morte, que passou a abrigar a exposição “Senhoras da Liberdade”, com fotografias de Pierre Verger e outros itens ligados à trajetória da confraria. Os dias seguintes foram marcados pelo translado do esquife de Nossa Senhora da Boa Morte, pela missa em memória das irmãs falecidas, cortejo com velas pelas ruas do Centro Histórico da cidade, atividades em honra a Nossa Senhora da Glória e shows, incluindo um tributo aos Tincoãs com a cantora Ana Paula Albuquerque e apresentação de Gerônimo Santana.
“Celebramos com vocês uma das maiores festividades desta década”, afirmou a confraria, que também ressaltou o crescimento da festa e a responsabilidade de preservar o legado deixado pelas mulheres africanas que fundaram a Irmandade. A história do grupo remonta ao século XIX e está ligada à resistência da população negra na Bahia. Registros e estudos apontam indícios da presença da confraria em Cachoeira entre 1810 e 1840, após a chegada de mulheres negras escravizadas vindas da África. Na cidade, as integrantes desenvolveram atividades sociais e comerciais, utilizando parte dos recursos arrecadados para ajudar na compra da liberdade de pessoas escravizadas.
Djamila Ribeiro
A edição deste ano também foi marcada pela presença da escritora Djamila Ribeiro. Em publicação nas redes sociais, ela compartilhou a experiência de participar da celebração e destacou o acolhimento recebido pelas integrantes da Irmandade e pelo público de Cachoeira.

Escritora Djamila Ribeiro participou da Festa da Boa Morte 2026 (Fotos: Reprodução/Instagram).
“Foram dias tão bonitos e intensos que me faltam palavras para descrever. Vivenciar a Festa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, conhecê-las de perto em um encontro privado, ser reconhecida e acolhida por elas, receber o carinho do povo nas ruas… ainda vou demorar a processar tudo”, escreveu.