Baiano Elomar leva “O Auto da Catingueira” a São Paulo e comenta sobre piseiro: “nem tenho tempo de ouvir isso”

Baiano Elomar leva “O Auto da Catingueira” a São Paulo e comenta sobre piseiro: “nem tenho tempo de ouvir isso”

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Kika Antunes/Divulgação

Publicado em 23/07/2026 às 13:36 / Leia em 4 minutos

O compositor, violeiro, cantor e escritor baiano Elomar Figueira Mello, de Vitória da Conquista, volta aos holofotes aos 88 anos com “O Auto da Catingueira”, ópera que será apresentada nesta quinta-feira (23) no palco do Cultura Artística, em São Paulo.

A obra, composta no fim da década de 1960 e gravada em LP duplo em 1983, ganha nova montagem assinada pelo grupo barroco holandês Apollo Ensemble, responsável por “descobrir” a criação de Elomar e levá-la ao palco em uma adaptação inédita. A direção é de André Heller-Lopes, a direção musical do maestro ucraniano David Rabinovich e os arranjos de Henrique Gomide. João Omar, um dos filhos do artista, participa ao violão.

Definida pelo próprio autor como uma “ópera sertânica”, a obra mistura a cultura popular nordestina à linguagem lírica. Narrada pelo Cego Cantador, acompanha a disputa entre os violeiros Chico das Chagas e Cantador do Norte pelo amor de Dassanta, personagem que também simboliza a própria caatinga.

Em entrevista ao Estadão, Elomar explicou que a proposta da obra sempre foi retratar um universo distante das cidades. “São os valores do sertão, a realidade sertaneja, sem abordagem da pólis, das cidades. Por isso, dei a ela essa definição. Minha música é mais bucólica”, afirma.

Embora reconheça que a temática seja profundamente nordestina, o compositor acredita que o sentimento retratado na história ultrapassa fronteiras. Segundo ele, o principal elemento da narrativa é o desafio de violas, algo pouco comum na tradição operística europeia, mas o amor tratado na trama é universal.

Leitor de literatura de cordel, Elomar revela, porém, que sua maior influência veio dos romances de cavalaria. Ao Estadão, contou que obras como “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, moldaram seu imaginário e o fizeram perceber semelhanças entre os valores medievais e a cultura sertaneja. “Fui comparando como os valores da Idade Média se repetiam aqui no Brasil, no nosso Nordeste, sobretudo na Bahia”, destaca.

Foto: Kika Antunes/Divulgação

Recluso e dividido entre Vitória da Conquista e a Casa dos Carneiros, propriedade rural onde cria animais, Elomar lamenta profundamente as transformações vividas pelo sertão nas últimas décadas. Ao lembrar de uma jornalista alemã que, nos anos 1980, comprou um exemplar de “O Auto da Catingueira” para traduzi-lo ao alemão como registro histórico, disse ao Estadão que a previsão dela acabou se confirmando muito antes do esperado.

“O sertão acabou. […] Não chegou a 100 anos. O sertão já acabou tudo. Esbagaçou. Chegou a luz elétrica, acabou. Os personagens de minhas canções já morreram e a descendência deles seguiu outros caminhos”, lamenta. Em seguida, resumiu o sentimento deixado por essas mudanças: “De saudade dos vaqueiros encourados, dos campos de gado. Me dá uma dor no coração quando lembro dos vaqueiros valorosos que conheci”, diz.

Questionado sobre o atual cenário musical do interior nordestino, respondeu de forma direta ao ser perguntado sobre o piseiro. “Deus me livre. Eu não. Nem tenho tempo de ouvir isso”.

Além da ópera, Elomar segue apresentando o espetáculo “Uma Cantoria para Vital”, homenagem ao parceiro Vital Farias (1943-2025), com quem dividiu os históricos discos da série “Cantoria”, ao lado de Xangai e Geraldo Azevedo. O artista também pretende levar o espetáculo a São Paulo, após apresentações em Belo Horizonte, Recife e João Pessoa, e busca patrocinadores para viabilizar a montagem.

Seu maior sonho, porém, continua sendo registrar integralmente sua produção erudita. “Minha maior vontade é ver meus 36 mil compassos sinfônicos de óperas e antífonas gravados. São 17 horas de música. Quero ouvir e quero que meu público também ouça. Meu público conhece mais minha obra popular; a mais culta, ele desconhece”, disse ao Estadão.

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