A campeã olímpica Ana Marcela Cunha escreveu mais um capítulo histórico em sua carreira ao atravessar o Canal da Mancha em tempo recorde. Nesta quarta-feira (22), a nadadora completou o percurso entre a Inglaterra e a França em 8h25min29s, estabelecendo o novo recorde sul-americano da travessia, considerada a mais tradicional e uma das mais difíceis da natação em águas abertas.
Muito além dos 42,9 quilômetros percorridos, a atleta baiana precisou enfrentar uma série de desafios naturais, como baixas temperaturas, fortes correntes marítimas, águas-vivas e mudanças repentinas nas condições do mar.
Por que atravessar o Canal da Mancha é um dos maiores desafios da natação?
A travessia do Canal da Mancha é um dos feitos mais cobiçados por nadadores de águas abertas. Embora a distância em linha reta seja de aproximadamente 33 quilômetros, o percurso costuma ser maior devido às correntes marítimas, que obrigam os atletas a alterar a rota durante a prova.
Além da resistência física, os nadadores dependem das condições climáticas para iniciar a travessia. Ventos, marés e mudanças no tempo são imprevisíveis, por isso os atletas costumam reservar uma janela de vários dias para tentar completar o desafio.
No caso de Ana Marcela, a tentativa poderia acontecer entre os dias 20 e 29 de julho. Na madrugada desta quarta-feira, as condições do mar foram consideradas favoráveis, com temperatura ambiente em torno de 23°C e água a aproximadamente 19°C, permitindo o início da prova.
Frio intenso, águas-vivas e correntes tornam o percurso ainda mais difícil
Mesmo com a temperatura da água acima da média registrada na região — que costuma variar entre 12°C e 16°C —, o frio continua sendo um dos maiores obstáculos da travessia.
Pelas regras oficiais, os atletas não podem utilizar roupas de neoprene ou qualquer equipamento que favoreça a flutuação, sob pena de a travessia não ser homologada. Assim, os nadadores cruzam o Canal da Mancha usando apenas maiô, touca e óculos.
Para reduzir os efeitos do frio e evitar lesões na pele, Ana Marcela aplicou uma mistura de vaselina e lanolina sobre o corpo. A combinação ajuda a diminuir o atrito, cria uma barreira contra a água fria e contribui para prevenir a hipotermia.
Outro desafio são as águas-vivas, conhecidas na região como medusas. As queimaduras provocadas pelos animais podem causar dores intensas e dificultar a continuidade da prova.
Além disso, as correntes marítimas podem mudar de direção rapidamente, obrigando os nadadores a adaptar a estratégia durante todo o percurso. O intenso tráfego de embarcações no estreito entre Inglaterra e França também exige atenção constante da equipe de apoio.
Ana Marcela bate recorde sul-americano no Canal da Mancha
Ana Marcela iniciou a travessia por volta da 1h (horário de Brasília), saindo da praia de Dover, na Inglaterra. Após 8h25min29s de nado contínuo, ela chegou ao litoral de Calais, na França, completando aproximadamente 42,9 quilômetros.
Com o desempenho, a brasileira quebrou o recorde sul-americano da prova, superando as marcas de Ana Mesquita, que completou a travessia em 9h40, em 1993, e de Adherbal de Oliveira, que registrou 8h49, em 2015.