Muito antes da água chegar às torneiras, Salvador dependia de dezenas de fontes espalhadas por suas ladeiras, vales e encostas. Cercada pela Baía de Todos-os-Santos, pelo Oceano Atlântico e por uma extensa rede de nascentes naturais, a primeira capital do Brasil construiu parte de sua história em torno da água. Foram as fontes e chafarizes que garantiram o abastecimento da população durante séculos e ajudaram a moldar o crescimento urbano da cidade.
Atualmente, estima-se que Salvador possua dezenas de fontes e bicas mapeadas. Deste total, cerca de 19 são reconhecidas oficialmente como fontes históricas, sendo mais de dez tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Além do valor arquitetônico, esses espaços guardam memórias fundamentais da formação social, cultural e religiosa da capital baiana.
A maioria das fontes remonta aos séculos XVI, XVII e XVIII, período em que a cidade dependia exclusivamente desses mananciais para o consumo diário. A água coletada era utilizada para beber, cozinhar, lavar roupas e atender às necessidades básicas da população.
Segundo o historiador Ricardo Carvalho, a presença dessas estruturas foi decisiva para o surgimento e a expansão de diversos bairros de Salvador.

Fonte do Santo Antônio
“Muitas regiões cresceram por causa dessas fontes. A Ladeira da Água Brusca, por exemplo, tem relação direta com a água que jorrava da Fonte da Muringa. A Fonte das Pedras também ajudou a moldar aquela região. O próprio Tororó nasce desses mananciais de água doce”, explica em entrevista ao Alô Alô Bahia.
Para o historiador, Salvador pode ser considerada uma verdadeira “cidade das águas”. Além de estar cercada pelo mar, a capital foi construída sobre um rico sistema de nascentes, rios e lagoas naturais.

Fonte da Água Brusca
“Salvador nasce historicamente por conta das águas. Temos a Baía de Todos-os-Santos de um lado, o Oceano Atlântico do outro e, ao mesmo tempo, um conjunto muito rico de mananciais de água doce. Infelizmente, muitos rios desapareceram com o crescimento urbano, mas as fontes históricas continuam sendo testemunhas dessa relação da cidade com a água”, afirma.
Mais do que estruturas voltadas ao abastecimento, as fontes ganharam identidade própria ao longo dos séculos. Muitas receberam elementos arquitetônicos, brasões e símbolos religiosos. Algumas mantêm até hoje forte ligação com tradições de matriz africana, sendo utilizadas em lavagens, celebrações e rituais.

Fonte da Muganga
Entre as mais conhecidas estão a Fonte da Muringa, a Fonte do Gravatá, a Fonte do Baluarte, a Fonte do Queimado, a Fonte do Tororó e a Fonte das Pedras. Juntas, elas formam um patrimônio que ajuda a contar capítulos muitas vezes esquecidos da história de Salvador.
“A gente passa na frente de algumas dessas fontes e não percebe a importância histórica que elas tiveram para a cidade. Elas ajudaram a construir essa grande tapeçaria histórica de Salvador. Não é só o casario, a igreja ou a praça que contam a nossa história. As fontes também fazem parte dessa narrativa”, ressalta Carvalho.

Fonte da Graça
Com a expansão dos sistemas modernos de abastecimento ao longo do século XX, as fontes deixaram de ser a principal forma de obtenção de água. Hoje, o serviço é realizado pela Embasa. Apesar da proteção legal de boa parte dessas estruturas, o historiador alerta para a necessidade de ampliar os esforços de preservação.
“A maioria delas é tombada e existe uma consciência do poder público de que são patrimônios importantes. Mas nem todas estão bem preservadas. É preciso cuidar das fontes da mesma forma que cuidamos das igrejas, das ladeiras e dos prédios históricos. Elas não podem ficar apenas na memória”, defende.

Fonte do Baluarte
Para ele, a criação de um roteiro turístico dedicado às fontes históricas poderia ajudar moradores e visitantes a conhecer uma das facetas menos exploradas do patrimônio soteropolitano.

Fonte do Queimado
“As fontes contam um pouco da história de cada bairro. Elas mostram como Salvador foi construída e como a água foi fundamental para o crescimento da cidade. Conhecer essas fontes é conhecer uma parte importante da identidade de Salvador”, conclui.