A restauração das peças artísticas do Caminho da Fé, corredor turístico e religioso localizado na Avenida Dendezeiros, na Cidade Baixa, em Salvador, demandou investimento de R$ 200 mil após sucessivos atos de vandalismo. O valor corresponde a cerca de um terço dos R$ 603 mil gastos pela Prefeitura com serviços de restauração de monumentos da capital baiana no ano passado.
Das 28 obras produzidas pelo artista plástico baiano Juarez Paraíso, com a colaboração de outros 14 artistas, 22 foram arrancadas e precisaram ser refeitas e reinstaladas. As peças restauradas foram entregues em janeiro deste ano.
Além das gravuras, os 14 totens de madeira com base de granito que sustentam as obras também sofreram depredações. Os equipamentos foram arrancados, danificados, pichados, riscados e chegaram a ser utilizados como depósito de lixo.
“As obras do Caminho da Fé foram totalmente restauradas após sucessivos atos de vandalismo registrados. O percurso artístico reúne 14 estações com 28 obras que retratam a história de Santa Dulce dos Pobres e a devoção ao Senhor do Bonfim. Apesar de fixadas com parafusos ocultos e protegidas por vidro, 22 peças foram furtadas, levando à reposição completa dos totens em madeira com as chapas de aço inox nas quais foram feitas as pinturas de Juarez Paraíso”, conta a gerente de Patrimônio Cultural da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Roberta Santucci.

Com o objetivo de preservar o conjunto artístico, a FGM abriu o processo de tombamento das obras. A próxima etapa prevê a elaboração de um dossiê para análise do Conselho de Patrimônio Cultural e posterior inscrição no livro competente. “Toda arte pública significa uma referência do bem cultural que a cidade tem e preza. Então, é necessário que haja uma preservação constante. Esse trabalho foi vandalizado duas vezes. Na primeira vez, logo após a inauguração, todas as efígies foram riscadas. É algo incompreensível”, lamenta Juarez Paraíso, escultor, pintor, gravador, desenhista e imortal da Academia de Letras da Bahia.
O designer gráfico Washington Falcão, convidado por Juarez para a reprodução e instalação das obras, explica que a recuperação ocorreu em duas etapas: a primeira voltada à limpeza e recuperação dos totens de madeira, e a segunda concentrada na reprodução das peças furtadas. “Foi feita uma nova gravação e instalação, agora, com mais cuidado, na tentativa de evitar novos furtos e depredações. Utilizamos bastante parafuso e uma base de inox para fixar as peças, para dar mais segurança”, complementa Washington.
Com 1,1 quilômetro de extensão, o Caminho da Fé liga o Santuário Santa Dulce dos Pobres, na Praça Irmã Dulce, à Basílica Santuário Senhor do Bonfim. O corredor foi entregue pela Prefeitura de Salvador em agosto de 2020, após obras de requalificação que incluíram drenagem, ampliação de passeios, novas faixas de pedestres, fiação subterrânea, iluminação em LED, mobiliário urbano e instalação dos marcos religiosos.
As esculturas dos totens foram produzidas pelo arquiteto Adriano Mascarenhas, enquanto as obras de arte embutidas nas estruturas levam a assinatura de Juarez Paraíso, com colaboração de Juraci Dórea, Marcia Magno, Ray Vianna, Sônia Rangel, Murilo, Guache Marques, Edsoleda Santos, Leonel Mattos, Paulo Rufino, Fernando Freitas Pinto, J. Cunha, Bel Borba, Chico Mazzoni e Washington Falcão.

Aos 91 anos, Juarez Paraíso destaca o significado simbólico do projeto. “Cada totem é composto por três peças em aço e tem uma efígie, ou seja, o rosto de Irmã Dulce de um lado e o do Senhor do Bonfim de outro. No caso de Irmã Dulce, são frases ditas por ela e, no caso do Senhor do Bonfim, são textos sobre a vida dele, a relação com a população e com as festividades. Também há frases extraídas do Hino ao Senhor do Bonfim”, conta.
“É um trabalho que realmente eu fiz com muito carinho e muita dedicação. Trata-se de dois santos poderosos, especialmente devotados. Santa Dulce é a primeira santa brasileira e, mais ainda, baiana”, destaca Paraíso, que afirma ainda que aguarda com expectativa o avanço do processo de tombamento das obras, na esperança de ampliar a proteção ao conjunto artístico. “É preciso zelar pelo tesouro artístico que é de toda a população”, acrescenta.