De origem humilde em Salvador, a trajetória de Neuza Maria Alves da Silva é um marco de resiliência. Filha de uma empregada doméstica que não sabia ler, ela estudou a vida toda na rede pública até transformar sua realidade: de moradora de cortiço a primeira desembargadora federal negra do país. Ao superar as barreiras de um sistema jurídico estruturalmente excludente, ela fez história ao se tornar a primeira mulher negra a ocupar o cargo de desembargadora federal no Brasil, em 2004.
Sua chegada ao topo da carreira da magistratura nos Tribunais Regionais Federais foi resultado de uma trajetória marcada por estratégia, autoconfiança e crença na educação. “Sempre respeitei muito a individualidade dos outros e não deixava espaço para que ninguém tentasse “fazer a minha cabeça”, dirigir meus passos, escolher os meus caminhos! Sempre tive um comportamento altivo, mas ao mesmo tempo cordial. Essa foi a minha grande arma para vencer uma gama enorme de obstáculos, preconceitos e pré-julgamentos”, compartilhou a desembargadora em entrevista à Comissão AJUFE Mulheres.
Carreira na magistratura
Neuza Maria Alves da Silva graduou-se em Direito na Universidade Federal da Bahia e especializou-se nas áreas de Direito Processual (Civil e Penal) e em Direitos Humanos. Depois de advogar por 13 anos, ingressou na magistratura federal. Dentre os cargos ocupados ao longo da carreira estão alguns como juíza do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª Região (1987), juíza federal titular da 5ª Vara Federal (1989), vice-presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Mulher (2001-2003), coordenadora dos Juizados Especiais Federais da 1ª Região (biênio 2012-2014) e vice-presidente do TRF1 (biênio 2014-2016).
A desembargadora Neuza permaneceu como juíza na 5ª Vara Federal de Salvador até 2004, quando foi promovida pelo critério de merecimento ao cargo de Desembargadora Federal e passou a integrar os quadros do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. Aposentou-se no ano de 2017, contando 30 anos de serviço dedicados à magistratura. Durante a carreira, a magistrada recebeu 21 homenagens, destacando-se títulos, medalhas e condecorações.
Para além dos títulos e destaques, a carreira da desembargadora também é referência no que tange a verdadeira dedicação ao serviço público. “Exercer o cargo de juíza federal significou um desafio diário e constante! Dia após dia, ano após ano, com a responsabilidade acrescida de fazer o melhor que eu pudesse para contribuir, desse modo, não só para a formação de jurisprudência, como para a distribuição, com equidade, da Justiça que cada um veio buscar quando se dirigiu à Justiça Federal”, declara.
Uma vida dedicada ao trabalho
Ainda em entrevista a AJUFE Mulheres, Neuza compartilha que durante a carreira abdicou, muitas vezes, da vida pessoal para se dedicar ao trabalho, inclusive a partir de 2004, quando se mudou para Brasília.
“Não poder viver muitas coisas que aconteceram dentro da minha família foi duro; eu não vi batizados, não vi crismas, não vi algumas formaturas de parentes, de amigos, não acompanhei os primeiros namoros de minhas filhas. Mas pude, ao fim, me considerar vencedora nessa parte. Eu sei que é difícil, foi difícil, mas ao final consegui conciliar porque, embora não exercesse função acadêmica, eu era magistrada, mãe, amiga, filha, irmã, parente, tia, sobrinha, prima, namorada, e consegui deixar todas essas funções em sintonia”, disse.
Mesmo após a aposentadoria, a desembargadora segue sendo homenageada no meio jurídico, em eventos governamentais e em encontros que destacam o protagonismo feminino e negro, reconhecendo sua trajetória brilhante de dedicação ao Brasil.