Primeira baiana negra a levar um Grammy Latino, Xênia França diz: 'Assumi uma autonomia sonora'

É jornalista e escreve para o Alô Alô Bahia. Instagram: @hilzacordeiro

Na semana passada, Xênia França tornou-se a primeira mulher negra da Bahia a receber um Grammy Latino. A cantora natural de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, levou o troféu de melhor álbum pop contemporâneo em língua portuguesa, com 'Em Nome da Estrela'. O Alô Alô Bahia conversou com a artista e, nesta entrevista,ela reflete sobre sua trajetória desde a indicação em 2018 até finalmente ser consagrada em 2023.

Na conversa, a cantora usa palavras como mística, sensível e viajandona para definir a si mesma. A baiana compartilha sua visão sobre a improbabilidade de ganhar o prêmio e até brinca que sua sorte pode ter mudado depois de cruzar com Rosalía no Red Carpet. Xênia também conta bastidores da amizade e da inusitada conexão com Gaby Amarantos, que também foi coroada com um Grammy pelo seu álbum 'Technoshow'.
 
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Alô Alô Bahia - Essa foi a segunda vez que você figurou na lista de indicados ao Grammy Latino e a primeira em que conseguiu trazer o troféu para casa. Que análise você faz desses dois momentos de indicação, em 2018 e em 2023? O que aconteceu tanto na tua carreira quanto no contexto do prêmio?

Xênia França - Esse é um resultado de muitas escolhas, pessoais e coletivas, das pessoas que trabalham comigo, que me ouvem e estão atentas ao que eu gostaria de executar artisticamente. Ser indicada no segundo disco e ganhar, eu acredito que é um desdobramento da energia que foi colapsada no primeiro disco. 

Eu lancei o meu primeiro trabalho e fiz as escolhas que fiz. Assumi uma autonomia sonora e estética muito minha e a academia percebeu isso, que eu tinha algo diferente acontecendo. No meu segundo disco, eu resolvi mergulhar nessa experiência que é a experimentação musical, eu não cai no clichê de reproduzir algo que foi feito no primeiro disco. Alguns elementos estão lá, como as percussões baianas, que são a estrutura do trabalho.

O trabalho tem método, mas ele está livre para a criatividade do que acontecer no estúdio. Depois de tudo pronto, o disco fala muito sobre mim, sobre esse estar atenta a mim mesma. O processo desse segundo disco aconteceu na pandemia, então era um momento que só dava para fazer isso, para estar atenta a mim. Fiquei bastante reclusa, inclusive sem muita interação com redes sociais, lidando com meus processos emocionais e psicológicos.

E aí, acabou desaguando musicalmente nesse segundo disco. Estar em estúdio é uma delícia, e a gente tinha tempo para isso. Não tinha outra coisa para fazer, eu não tinha outras preocupações além da pandemia em si. Tudo o que um artista mais quer é ter tempo para produzir a sua arte. Esse trabalho é feito disso, de tempo, de cuidado. 

Não que o outro não tivesse, mas foi feito no rush da estrada, porque eu ainda era do Aláfia quando fiz o meu primeiro disco. E quando eu lancei, já fui para uma turnê, e fiquei em duas turnês ao mesmo tempo, com Aláfia e com o meu projeto. Então, esse foi um momento em que eu tive tempo para estar sozinha e refletir sobre as minhas escolhas artísticas, sobre a minha vida, principalmente. Fiquei super feliz que, dentre 15 mil discos, esse foi escolhido como o Melhor Álbum de Música Pop Contemporânea em Língua Portuguesa.
 
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No álbum, você faz uma viagem interna e chegou a mencionar esse afastamento das redes sociais. O que você pratica para estar atenta a si mesma?

Eu sou uma pessoa muito pisciana. Para mim, é muito fácil me desconectar das coisas. Eu não ouvia música. Com raríssimas exceções, uma música clássica. Eu ouvia frequências porque faz parte do meu desenvolvimento pessoal. Basicamente, eu fiquei dedicada na leitura de coisas espirituais, metafísicas. Sempre fui muito curiosa a esse respeito. No dia a do dia, a gente quer dar atenção para coisas que fazem muito sentido para a gente, mas a gente sempre fica com aquele papo de tô sem tempo.

Nesse período de dois anos que a gente ficou recluso, eu tive tempo para viajar, para me deixar ser quem eu sou. Um pouco antes da pandemia, quando eu recebi o projeto de fazer um disco, eu não fazia ideia do que eu ia dizer. Aí veio a pandemia, piorou. Pensei que não fazia sentido nenhum fazer um disco. Eu ia tocar onde? Na pandemia, lidei com conflitos  internos, coisas que eu carregava desde a infância, como melancolia, autoestima baixa, auto-sabotagem. 

Além disso, tenho toda essa abstração de vida, que é pensar nela como uma coisa meio geral, de ver a natureza como uma plataforma tecnológica que apoia tudo o que vive. De que nós estamos em um planeta apoiado por outros planetas, galáxias. Fico associando isso à ancestralidade, que não é algo apenas físico, mas que a energia da matéria vem e deságua na experiência que a gente tem no presente, no agora.

Eu cheguei à conclusão que o assunto desse disco era eu. Essa visão de mundo que eu tenho. Sempre tive muito cuidado ao abordar isso, até nas redes sociais, mas achei propício colocar em uma obra. É sobre avaliar a existência de um lugar mais amplo, do pequeno até o maior. 

Renascer foi a primeira música, foi um desbloqueio porque eu estava achando que o disco não ia acontecer. Mas aí um dia eu fui passar por um processo espiritual no meu terreiro [Ilê Oba Ketu Axé Omi Nlá, do pai Rodney de Oxossi], e cheguei em casa no dia seguinte e escrevi ela como um auto-manifesto de compaixão, de que não sou uma Mulher Maravilha, de que eu não tenho condição de lidar com tudo. Assumir isso é bancar a cura.
 
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Você é uma mulher negra, uma baiana que não é da capital… E é a primeira baiana negra a levar um Grammy Latino. Num texto no Instagram, você chegou a dizer que ganhar esse prêmio era improvável. O Grammy parecia algo distante demais para alguém como você? O que te fazia pensar nessa improbabilidade? 

A improbabilidade está dentro da coisa algorítmica. Penso em termos de vibração mesmo.  Não era uma coisa distante porque eu já tinha vivido a experiência de ter sido indicada. Não tem nada impossível. A algorítmica é de você colocar o trabalho no mundo, qualquer ação, e depois você não sabe muito bem quais desdobramentos vai ter. 

É tipo: Você decide não ficar em casa hoje, você vai para a academia e nesse dia tem uma pessoa lá na academia que você conhece e ela te oferece uma proposta de emprego. A vida é sempre assim. Então, toda vez que a gente coloca uma coisa material no mundo, mesmo que seja uma palavra, que também é matéria, a gente não tem muita noção do caminho que ela vai tomar. A matéria está regida pelas forças que a gente conhece e as que a gente não conhece. 

Um artista ser indicado a uma premiação pode ser um caminho natural, mas só na minha categoria foram 15 mil inscritos. Nessa hora, a gente tem que contar com nossas forças bem alinhadas. Acredito na energia das coisas, das pessoas, dos materiais.

A indicação ao Grammy já é uma validação. Para nós, essa é a maior honra. Dessa vez, eu fui para lá muito com a sensação de vencedora. Eu andei no Red Carpet depois da Rosalía. Brinquei com meu produtor que eu acho que peguei o rastro da energia dela e ganhei o Grammy. Ali está o suco, a nata da indústria. E eu me apropriei daquela energia. Na hora que veio o anúncio, fiquei estatelada, chorei. O meu trabalho chamou a atenção.


Você foi notícia em diversos veículos no Brasil e na mídia Latina por ter conquistado esse feito. A gente está aqui hoje te entrevistando por conta dessa vitória. Quais repercussões você sente que o Grammy já te trouxe e ainda pode trazer?

Sou muito bicho do mato, sou muito de Camaçari mesmo. Eu e Gaby Amarantos, a gente ficou muito amiga. A gente não se conhecia, fomos apresentadas uma vez, na casa de alguém, mas até aí éramos conhecidas. No mês passado, a gente fez um show juntas, em um projeto que junta pessoas que têm estilos musicais diferentes. Foi a coisa mais, mais! Era uma noite de eclipse. Eu amei conhecer ela! Gaby é muito poderosa e simples. 

Passaram alguns dias, a gente se encontrou na Espanha dois dias antes do Grammy. E eu encontrei ela para dizer que depois daquele show que fiz com ela parece que rolou uma mágica na minha vida. Minha vida melhorou muito. Eu passei a me sentir melhor comigo. 
 
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No dia da premiação, era um mar de gente, me perdi da Gaby, do meu produtor. Comecei a sentir uma dor. Talvez a vitória doa, tá, gente? Dez minutos depois, fui anunciada e ganhei. E em seguida Gaby ganhou logo depois de mim. Falei: "Cara, tá acontecendo alguma coisa entre a gente". Ficamos juntas, celebramos, choramos. Ela é furacão, eu sou reflexiva.

Tudo isso para te dizer que desde que eu cheguei, eu não li muita coisa sobre mim, não entrei muito nas coisas. O pouco que entrei, vi gente falando que não me conhecia, mas que queria muito conhecer. E tem os comentários podres, também, né? Então como sou muito sensível, eu me protejo das redes sociais. Mas sei que tem notícias no mundo todo e eu recebi muita energia de amor. Espero que esse prêmio seja muito próspero.

Fazer um álbum é algo extremamente exaustivo. Eu estava conversando com Liniker na época que a gente estava fazendo nossos discos. Ela estava mais adiantada do que eu. E a gente trocava bastante e eu falava para ela que ninguém sai ileso de um álbum, ninguém sai igual. Eu era uma Xênia antes do meu primeiro disco e me transformei em outra pessoa. Eu conheci lugares que ampliam cada vez mais minha visão da vida. O segundo veio e eu me aprofundei mais ainda em mim. O mundo inteiro me viu subindo naquele palco e eu espero que os desdobramentos disso sejam à altura.

Você viveu a adolescência em Camaçari e já mora em São Paulo há um bom tempo. O quanto a Xênia dessa cidade da Bahia ainda está aí em você? Quais relacionamentos você mantém hoje com teus lugares de origem?

Eu costumo dizer que sou a Bahia onde vou. A Bahia tem mesmo aquele visgo do ditado de que mancha de dendê não sai. Na régua, acho que já tô há mais tempo em São Paulo do que o que vivi na Bahia. A gente tem acesso ao mundo através de São Paulo porque tem gente de todo o mundo aqui. Depois de tanto tempo morando aqui, isso ampliou muito a minha visão de mundo. Mas eu tenho muita consciência de que tudo que sou parte desse lugar, da Bahia. 

Fui uma criança criada numa cidade industrial, minha família é uma família de operários. Não é uma família de intelectuais. Meu pai é artista, tocava violão e cantava na noite. Não fui criada por ele, fui criada pela minha mãe. Mas tenho essa lenda fortíssima que sempre ouvi desde a infância. 

Tudo o que eu sou e de onde eu venho está na minha maneira de fazer música, está no meu sangue e nos meus ossos. A Bahia é uma fonte criadora. Se eu não fosse baiana, eu ficaria muito chateada com Deus. Sempre dou carteirada e nunca deixo ninguém dizer que perdi o meu sotaque. Nunca deixo fazerem essa desidentidade comigo. 

Fotos: Reprodução/Instagram | Bruna Valença | Marina Zabenzi

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