17 Sep 2020

Diretor do Instituto Cervantes fala sobre relações entre Brasil e Espanha e revela planos para o pós-pandemia

Diretor do Instituto Cervantes fala sobre relações entre Brasil e Espanha e revela planos para o pós-pandemia O diretor do Instituto Cervantes de Salvador, Daniel Gallego Arcas, acredita que a retomada do turismo entre Brasil e Espanha será lenta e feita com muita cautela devido à pandemia do novo coronavírus. Contudo, após esta fase mais crítica, ele opina que "a recuperação será espetacular, pois as pessoas depois do confinamento vão querer viajar, se a economia permitir".
 
Na capital baiana desde o ano passado, Daniel Gallego chegou ao Brasil em 2011 e conhece bem as semelhanças e diferenças entre as culturas brasileira e espanhola. Nesta entrevista ao Alô Alô, ele fala sobre estas relações culturais entre os dois países, conta sobre suas origens na Espanha e relata como foi passar a pandemia em Salvador. "A preocupação com a saúde de amigos e família tornou-se algo bastante real naquele momento", diz.
 
Além disso, ele também fala sobre os planos para o Instituto Cervantes com a retomada das atividades em Salvador. Por enquanto, o instituto mantém sua programação de maneira virtual e, agora em setembro, terá programação para celebrar o Dia Europeu das Línguas e, em dezembro, uma Mostra de Cinema Argentino, que contará com uma seleção de variados e premiados filmes da recente e exitosa produção daquele país.
 
Sob uma perspectiva individual, como você avalia a relação Brasil-Espanha, sobretudo nos aspectos econômicos?
 
Um espanhol ao mudar-se para o Brasil por motivos profissionais, a primeira ideia que vem à cabeça é: um país grandioso - o principal mercado latino-americano e com uma das economias emergentes mais destacadas no mundo. Tanto as relações culturais como as econômicas com a Espanha sempre têm sido muito intensas, e nas últimas décadas, vêm evoluindo muito fortemente. Estas relações não se baseiam apenas na presença de uma importantíssima colônia de espanhóis e descendentes na região Nordeste.
 
A Espanha é o terceiro investidor direto estrangeiro no Brasil, depois dos Países Baixos e Estados Unidos. São muitos os que ainda desconhecem este fato, e se surpreendem profundamente ao descobrir a grande aposta que as empresas espanholas fazem há mais de um quarto de século na quinta potência mundial em tamanho e população e nona economia do mundo.
 
No ano passado, a União Europeia apresentou um estudo sobre a presença no Brasil das empresas europeias, no qual mostrava que geravam cerca de 250 mil postos de trabalho. Pois bem: mais de dois terços destes postos de trabalho foram gerados graças a empresas espanholas, contemplando assim o Brasil como uma extensão de sua atividade produtiva. Algumas dessas empresas são: Aena, Santander, Acciona, ACS, Iberdrola, Siemens-Gamesa, CAF, Roca, Telefónica, Estrella Galicia, Fini.
 
 
 Para além da similaridade da língua, como povos latinos, temos uma relação cultural muito interessante entre Brasil e Espanha. Qual o papel do Instituto Cervantes na manutenção desses elos?
 
Para a Espanha, o Brasil é um país parceiro cultural importantíssimo. Aqui, nosso país possui a maior rede de Institutos Cervantes do mundo: oito centros em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Salvador e Curitiba. O Cervantes é um órgão da Administração Espanhola encarregado de promover a cultura espanhola em todas as suas variantes, bem como de executar a política cultural do Estado espanhol no Brasil.
 
A coordenação e colaboração entre os oito Institutos é constante, o que se reflete em um grande número de eventos culturais conjuntos e ações comuns de promoção da cultura espanhola. Esta colaboração tem seu equivalente nas intensas relações mantidas pelo Conselho Cultural da Embaixada da Espanha com o Ministério da Cultura do Brasil, com os diferentes atores culturais do estado da Bahia, bem como com inúmeras instituições brasileiras ao redor do mundo. Todos eles são instrumentos muito úteis para projetar ao público brasileiro as atividades e manifestações culturais do nosso país em toda a sua diversidade.
 
Como foi para você passar por uma pandemia estando no Brasil e também acompanhando as notícias do seu país?
 
Nos primeiros meses da pandemia, a Espanha foi um dos países mais atingidos por esta grave doença. Enquanto o Brasil ainda vivia uma relativa tranquilidade, o número de atingidos na Espanha crescia assustadoramente, fato que determinou a implantação de um dos mais rigorosos lockdown de toda Europa. A preocupação com a saúde de amigos e família tornou-se algo bastante real naquele momento. Já no Brasil, muito devido a seu tamanho continental, a propagação do vírus ocorreu pontualmente em algumas grandes cidades para depois se espalhar numa velocidade mais branda, mas ao mesmo tempo, de forma mais prolongada em seu território. Eu acredito que tanto Espanha quanto o Brasil ainda têm grandes desafios pela frente, mas tenho confiança que ambos sairão com grandes lições.
 
Qual sua expectativa para a retomada do turismo entre Brasil e Espanha?
 
Sem a vacina à disposição da população, não haverá uma recuperação real, e sim, muito tímida. Esta recuperação vai ser lenta e, em princípio, até que os números melhorem, será necessária muita cautela. Mas com o potencial turístico do Brasil, assim que o perigo diminuir, a recuperação será espetacular, pois as pessoas depois do confinamento vão querer viajar, se a economia permitir. O principal problema que parecemos enfrentar no “novo normal” será nossa capacidade de controle e adaptação.
 
O potencial de belezas naturais, paisagens culturais e históricas e os encantos do Brasil são impressionantes. O país tem muito mais potencial para tirar mais proveito de todas essas vantagens, mostrando ao mundo todos os seus encantos, ainda desconhecidos para o turismo, já que não é só samba, praia e Rio de Janeiro. São os espaços naturais, as selvas, os rios, o interior do país e o patrimônio cultural, os museus, a história, cidades como Ouro Preto, Brasília, Gramado e claro, Salvador. Sem esquecer a rica gastronomia com os seus inúmeros produtos, alguns deles tão desconhecidos, mas ao mesmo tempo tão versáteis como a mandioca nas suas infinitas versões.
 
Há quanto tempo você está no Brasil à frente do Cervantes?
 
Em 2011, cheguei a São Paulo onde morei durante cinco anos na cidade que jamais descansa. Nesse período, trabalhei com funções de administrador do maior Instituto Cervantes do Brasil e, desde o primeiro momento, o povo brasileiro, com esse caráter amável e acolhedor, me recebeu de braços abertos. Em 2016, fui transferido para Brasília onde continuei desempenhando as mesmas funções no Instituto Cervantes na capital do país. Em 2019, fui nomeado Diretor do Instituto Cervantes de Salvador, localizado na Ladeira da Barra, com vista para a Baía de Todos-os-Santos e para a Ilha de Itaparica. Foi com essa mesma impressionante vista que o pintor Maíno, encarregado pelo rei espanhol Felipe IV, em 1634 relatou “A Recuperação da Bahia de Todos os Santos” num extraordinário quadro que agora ocupa uma das principais salas do Museu do Prado, ao lado dos grandes mestres como Velazquez, Zurbarán, Tiziano, El Bosco. Nesse quadro, relata-se a batalha naval da Espanha junto a Portugal para expulsar aos holandeses da Bahia e da cidade de Salvador a qual tinham tomado um ano antes. O quadro foi destinado a ser colocado no salão dos Reinos do Palácio do Buen Retiro, centro do poder do rei espanhol.
 
Qual a sua origem na Espanha?
 
Mesmo tendo um sobrenome que faz referência a uma região do norte da Espanha, a Galícia, sou natural de uma cidade da Andaluzia, na beira-mar do Mediterrâneo chamada Motril; cidade com uma paisagem muito parecida com a Bahia: abacateiros, mangueiras, gravioleiras, palmeiras e cana de açúcar, com cheiro de melaço e de rum, com o mar sempre presente e regulando esse microclima específico, motivo pelo qual a região é chamada Costa Tropical. Nessa cidade do Sul da Espanha, passei a minha infância e adolescência, e posteriormente segui meus estudos pela França, Inglaterra e Bélgica. Essa experiência multicultural me lançou numa carreira internacional e criou um desejo imparável de conhecer o mundo.
 
Quais os principais aspectos, na sua opinião, que aproximam os dois povos e as suas culturas? 
 
Se há uma pergunta que normalmente é feita pela família e amigos é:  em que somos parecidos os espanhóis e os brasileiros? Se por um olhar, somos povos bem diferentes, ainda assim, há uma extrema simpatia recíproca entre ambos os povos. Os espanhóis adoram e admiram o Brasil e sentimos uma atração irreprimível por todo seu povo. Creio que esta empatia seja recíproca, superando outros povos europeus.
 
Em qualquer caso, a ascendência latina compartilhada tanto pelo Brasil quanto pela Espanha não se resume apenas pela língua, mas também pela cultura. Não devemos também esquecer do clima que modela os povos e as pessoas, pois apesar de se encontrar em território europeu, a Espanha certamente é dos países de clima mais ameno de toda Europa. A espontaneidade das pessoas certamente é outro traço que une os dois países, assim os dois povos são mundialmente conhecidos como extremamente receptivos e comunicativos.
 
E quais as principais diferenças?
 
Como eu costumo dizer, nós espanhóis somos extremamente próximos aos brasileiros, mas ao mesmo tempo, totalmente distantes.  A assertividade é uma forte característica espanhola que às vezes pode ser confundida com uma certa rispidez. Em amabilidade, os brasileiros ganham de longe, pois nós espanhóis somos muito mais bruscos; os brasileiros são alegres, sensuais, espontâneos e otimistas. Nós espanhóis somos alegres e sinceros, mas sérios e trágicos e bem mais pessimistas. O brasileiro é sentimental e o espanhol, passional. Na Espanha, se alguém perguntar como você está, a resposta sempre tende a ser desfavorável; no Brasil, mesmo com o coração apertado, a resposta sempre vai ser positiva.
 
Para o pós-pandemia, o Instituto Cervantes está planejando alguma atividade ou novidade para as atividades aqui em Salvador?
 
Durante a pandemia, o Instituto Cervantes tem desenvolvido toda a atividade cultural de maneira virtual. No próximo dia 26 de setembro, junto com os centros culturais europeus que fazem parte de EUNIC [European Union National Institutes for Culture], vamos a comemorar o Dia Europeu das Línguas com projeções de cinema europeu no Cinema Drive In do Instituto Goethe, assim também vamos celebrar uma telejornadas de formação de línguas para professores entre as três Instituições Culturais Europeias em Salvador- Aliança Francesa, Goethe Institut e Instituto Cervantes de Salvador. Em novembro, está programada uma Mostra de Cinema Argentino, que contará com uma seleção de variados e premiados filmes da recente e exitosa produção daquele país.
 
Na etapa da pós-pandemia, ao voltarmos à nova normalidade com as atividades presenciais, estamos trabalhando para trazer para a Bahia um grande pianista para um concerto comemorativo do Dia Nacional Espanhol, assim como um concerto de Zarzuela em colaboração com uma das orquestras de Bahia.  Do mesmo modo, estamos planejando com muito afinco uma exposição de um fotógrafo espanhol em colaboração com fotógrafos baianos para realização conjunta de oficinas e exposições visando uma maior integração com o público baiano.
 
Foto: divulgação. Siga o insta @sitealoalobahia.