Céu e Junior Rocha, da Meninos Rei, revelam detalhes do desfile do SPFW; confira a entrevista

Gabriela Cruz é jornalista, ilustradora e escreve para o Alô Alô Bahia. 

Em 2 de junho, a marca de moda baiana Meninos Rei vai participar pela terceira vez do São Paulo Fashion Week, principal semana de moda da América Latina. Será a oportunidade dos irmãos e estilistas Céu Rocha, de 40 anos, e Junior Rocha, 42, mostrarem um desfile completo, com cerca 30 looks, para uma plateia composta por formadores de opinião, compradores e imprensa especializada. E com um detalhe: cheia de famosos desfilando uma estampa exclusiva, entre eles a cantora Mariene de Castro.
 
Próximo de completar 8 anos, a Meninos Rei ganhou o público nacional com seu vibrante patchwork de estampas africana usado para construir sofisticados looks únicos, exclusivos, elaborados em alfaiataria precisa. A marca vestiu nada menos que dez convidados do Baile da Vogue, realizado no mês passado, incluindo a atriz Deborah Secco. A produção – aclamada pela mídia - consumiu muitas horas e quase 60 metros de tecido.   
 
A seguir, os irmãos antecipam algumas novidades sobre o desfile do SPFW e compartilham algumas curiosidades sobre a marca na entrevista exclusiva para o portal Alô Alô Bahia.
 
Como a moda entrou na vida de vocês?
De forma muito natural. Nosso pai é formado em desenho técnico, temos uma tia-avó que sempre trabalhou com arte, minha avó, mãe de minha mãe, foi costureira. Então a moda sempre esteve muito presente em nossas vidas. Eu lembro que saiamos com nossa mãe época de São João para comprar os tecidos e fazer as roupas. A gente pegava as camisas, colocava aqueles remendos pra deixar com uma cara mais moderna, mais diferente, sempre muito voltado pra isso. Fomos crescendo e a pessoas comentando que as roupas eram diferentes, daí tivemos a ideia da marca. Eu e Céu trabalhamos em loja de shopping. Na que eu trabalhava, saia com a dona pra comprar as coleções, comecei a fazer vitrine. Foi a mesma coisa com Céu. Nossa escola foi shopping mesmo. Aí construímos a marca e as pessoas começaram a gostar, um foi falando pra o outro fomos conquistando nosso espaço no mercado sempre com o nosso DNA.
 
Como se dá a criação de uma coleção?
O nosso processo criativo começa de uma forma muito natural, assim como a gente costuma conduzir a história da marca. Os temas acontecem de atos muito simples, as vezes de uma conversa que nos temos, de uma leitura, de uma viagem, as vezes de simplesmente você ir à rua e ver uma cena do cotidiano, tudo isso inspira. Pegamos essa essência, esse fio condutor, e começa. A pesquisa vai acontecendo até chegarmos ao tema, ao que a gente quer realmente comunicar, o que realmente a gente quer falar. A nossa moda é inclusiva, a gente esta sempre ligado as causas importantes da sociedade, a gente tem essa responsabilidade também de firmar nosso nome, nosso compromisso, nossos ideais de vida e traduzir isso para a marca.
 
Qual o papel de cada um na marca?
Céu Rocha é o estilista da marca, é ele quem desenha. Eu, Junior Rocha, sou o diretor criativo. Mas a gente palpita um no trabalho do outro. Tem meu outro irmão, Eduardo, que cuida da parte digital da marca e fez nosso e-commerce. Temos ainda uma irmã, Luciana, que não trabalha nessa área.
 
Quem foi o primeiro famoso a vestir a Meninos Rei? 
Eu trabalhei com Margareth Menezes por 21 anos. Entrei como stylist e depois fiquei como produtor, viajando. Começamos a Meninos Rei só com camisas e ela usou uma das peças. Era com estampa de cachorro, lembro até hoje. Depois veio Mariene de Castro. Na época eu fazia o stylist dela e ia trabalhar com minhas produções. Começaram a elogiar e eu acabei fazendo um look para ela. Depois fiz pra banda toda. Com essa facilidade andando com artista, eu ia pros shows e as pessoas sempre comentavam. Gilberto Gil teve acesso ao nosso trabalho e começou a usar. Outro padrinho nosso é Carlinhos Brown. Ele foi um fio condutor muito importante pro nosso trabalho.
 
Por que?
Quando teve aquele show dos Tribalistas aqui na Concha Acústica, Brown me ligou e falou: “Junior, pega as roupas todas e trás aqui. Eu fui com Céu, montamos tudo no camarim. Assim que terminou a passagem de som, ele chamou Marisa Monte e Arnaldo Antunes e falou: “aqui, Meninos Rei, que vai vestir a banda”. A maioria dos programas da Rede Globo que a Timbalada ia participar, eu fazia o figurino. Lulu Santos conheceu o trabalho porque ele apresentou. A gente deve muito isso a ele. Fizemos alguns desfiles no Candeal in Tall, que é um projeto dele, fizemos na rua do Candeal também. MV Bill conheceu meu trabalho por conta de Carlinhos Brown...
 
Que outros artistas já vestiram Meninos Rei?
Paula Lima, Larissa Luz, os cantores do É o Tchan, que eu faço o stylist, começaram a usar muito e a marca foi crescendo. Cynthia Sangalo nos convidou pra fazer um figurino para o Música Boa a pedido da própria Ivete. No Baile da Vogue, que teve como tema Brasilidade Fantástica, vestimos Deborah Secco, um dos trabalhos históricos pra marca. O ator Ícaro Silva, Jess, que saiu recentemente do Big Brother, também usaram looks nossos. O artista sempre busca algo ousado, diferente. Carlinhos Brown deixa as decisões de figurino com a gente. Entregamos no dia e ele adora. Isso é uma responsabilidade a mais e a gente fica muito feliz.
 
 
Como se deu a entrada de vocês no São Paulo Fashion Week?
Carlos Cruz, modelo e amigo com quem temos uma relação de anos, falou pra gente que tinha uma notícia muito boa, que tinha feito contatos e sugerido o nosso nome pra Rafael Silvério, que é um dos idealizadores do Projeto Sankofa, que seleciona marcas de afro-empreendedores para desfilar no SPFW. Ficamos super felizes porque entendemos que quando o nosso trabalho chegasse nesse lugar, despertaria um novo olhar para as pessoas que produzem moda na Bahia e no Nordeste. A marca baiana como a nossa que é fiel com a as nossas crenças, a nossa fé, a nossa religião que é o Candomblé, que levou Exu pras passarelas do São Paulo Fashion Week, e que esse ano mais uma vez se reiterou através dos movimentos, dos desfiles das Escolas de Samba. Então a gente sabe que o nosso dever é ser fiel a tudo que a gente acredita.
  
Vocês já participaram de quantas temporadas?
Teve a primeira, que foi em junho do ano passado, digital, quando lançamos o fashion filme Loju Exu, que significa Aos Olhos de Exu. E foi assim uma das cenas mais fortes da marca. Foi um filme de quase três minutos. Uma história tão linda, muito verdadeira, a gente levar e falar de Exu, da nossa religião, do que a gente acredita, do que a gente tem fé. Na segunda temporada, que foi o desfile físico em novembro, quando lançamos uma Coleção Salve o Povo de Rua, nos homenageamos todas essas entidades que são marginalizadas, falamos de exu, falamos de Tranca Rua, falamos das Pombas giras, e foi um desfile assim, muito marcante pra gente. A terceira temporada acontece em 2 de junho.
 
Como será o desfile desse ano?
Vão ser mais ou menos de 25 a 30 looks na passarela e teremos muitos famosos. Vou dar um spoiler aqui: Mariene de Castro vai estar com a gente, isso é exclusivo, aqui só pra você, o resto eu não vou falar. Nosso protagonismo é o povo preto, é falar da nossa raça, do que a gente acredita. Então somos reis e rainhas e precisamos festejar, comemorar, homenagear sempre essas pessoas. Preparem-se para esse desfile porque a gente está vindo com uma história muito forte. 
 
Eu soube que vai ter estampa exclusiva na passarela.
Vamos sim ter nossa própria estampa, que é a Ori, criada pelo Estúdio H, de Salvador, que tem um trabalho incrível. O designer sentou com a gente, conversou, falamos de toda a história da marca e aí desenvolveu junto comigo e com Céu uma estampa que ficou incrível. Então, nessa São Paulo Fashion Week, vai ter a estampa da Meninos Rei.
 
Vocês sempre trabalham com modelos baianos e afro-empreendedores no SPFW. Será novamente assim?
Praticamente 80% do nosso casting é daqui de Salvador. A gente precisa divulgar, a gente precisa falar dos nossos. Convidamos Vinicius Assie, que é um afro-empreendedor com um trabalho incrível. Pra esse SPFW tem um designer de Aracaju, que tem a marca Tsuru, Lucas Lemos. Ele desenvolveu todas as sandálias do desfile. Na parte dos acessórios tem Luana Rodrigues, que assinou todos os acessórios, os brincos, os anéis, e tem Kelba Varjão que está com os colares. Os balangandãs serão da Casa de Ilê de Odé, que fica na Feira de São Joaquim.
 
Qual o principal desafio para o jovem empreendedor preto no Brasil?
São inúmeros. Viola Davis recentemente deu um depoimento muito importante: “nossos sonhos precisam se tornar físicos”. Infelizmente temos poucas referências. Acho que está na hora das grandes empresas, daqueles que regem o poder público das suas cidades começarem a dar uma atenção especial para quem desenvolve moda e entenderem que ela muda a vida das pessoas, através dela você se manifesta, faz seus atos políticos, fala do acredita e as pessoas precisam entender que isso é algo que precisa ter mais atenção. Temos muitas vontades de desdobrar nosso trabalho em workshops e palestras para o público de projetos sociais, com crianças e jovens na periferia, onde trabalharemos a autoestima desses jovens negros que não se veem representados em lugar algum.
 
Como o público chega aos produtos da Meninos Rei?
Nós temos um site, www.meninosrei.com e um ateliê, que fica em Itapuã. É só ligar, agendar uma visita e conhecer nosso trabalho pessoalmente. Hoje fazemos muita coisa pelo Instagram @meminosrei, que é uma plataforma que coloca o seu trabalho em muitos lugares, mas a gente sabe da importância de ter uma loja.
 
Vocês estão envolvidos em algum projeto social?
 Sempre tivemos como foco instaurar o social em nossa empresa. A gente entende que é micro em nossa estrutura, mas somos grandes nas técnicas, na criatividade, no que a gente está oferecendo para as pessoas, então, dentro dessa limitação, trabalhamos com três ou quatro costureiras. Todo resíduo têxtil, todo tecido que seria jogado no meio ambiente, destinamos para três famílias aqui do bairro. Eles são ressignificados, transformados em acessórios, em bijuterias, pano de prato, descanso pra porta e panela, uma oportunidade de complementarem a renda no final do mês. Crescemos vendo nossos pais fazerem o bem para os outros e temos isso como compromisso de vida.

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