Há algo profundamente desconfortável em “Bom Garoto” (Heel, 2025), thriller do diretor polonês Jan Komasa, de “Corpus Christi”. O filme, que estreou nesta quinta-feira (10) no Filmelier+, parte de uma situação absurda para construir uma história que transita entre suspense psicológico, humor sombrio, violência e uma espécie bastante torta de drama familiar.
Na trama, Tommy (Anson Boon) é um jovem de 19 anos que vive entre drogas, violência e comportamentos autodestrutivos. Depois de uma noite particularmente caótica, ele é dopado e acorda preso em um porão, usando uma coleira e acorrentado dentro da casa de Chris (Stephen Graham) e Kathryn (Andrea Riseborough).
O detalhe mais perturbador é que o casal não parece interessado simplesmente em mantê-lo como refém. Eles acreditam que podem transformá-lo em uma pessoa melhor, em um bom garoto. A partir daí, o que parecia ser um sequestro passa a funcionar como uma espécie de experimento de reeducação, no qual violência, disciplina e manipulação psicológica se confundem.
Essa inversão torna “Bom Garoto” bastante interessante, não apenas colocando uma vítima diante de seus sequestradores, mas brincando o tempo todo com a ideia de quem está tentando controlar quem e, principalmente, com a pergunta sobre até onde alguém pode ir quando acredita estar fazendo o “bem”.
Stephen Graham está entre os grandes motivos para assistir. Conhecido por trabalhos como “Adolescência”, que lhe rendeu Globo de Ouro, BAFTA, Critics Choice Awards e o Emmy, o ator aparece aqui em um registro bastante diferente, interpretando um homem aparentemente educado, organizado e racional, mas cuja cordialidade esconde algo muito mais perturbador. Chris é assustador justamente porque raramente precisa levantar a voz para demonstrar que está no controle.
Andrea Riseborough também contribui para a atmosfera estranha do longa como Kathryn, uma mulher marcada pelo sofrimento e que participa de maneira ainda mais silenciosa da tentativa de “reformar” Tommy. Já Anson Boon sustenta boa parte da tensão ao interpretar um personagem que começa como alguém difícil de defender, mas que aos poucos ganha outras camadas.

Filme transita entre suspense psicológico, humor sombrio, violência e uma espécie torta de drama familiar
Esse trio é o grande destaque de “Bom Garoto”. Eles conseguem sustentar uma história que depende muito mais da tensão psicológica e do desconforto do que de grandes reviravoltas. Graham, especialmente, está excelente, vale frisar.
A premissa é, certamente, um dos pontos mais interessantes do filme. “Bom Garoto” provoca ao colocar em discussão a ideia de que alguém pode ser “corrigido” à força e ao embaralhar as posições de vítima e algoz. Ao mesmo tempo, o roteiro não consegue desenvolver todas as possibilidades que apresenta, não aprofundando as motivações de seus personagens.
Jan Komasa não entrega um thriller convencional, daqueles que explicam cada detalhe e conduzem o espectador até uma conclusão previsível e definitiva. Pelo contrário, ele cria uma situação cada vez mais desconcertante e deixa algumas respostas em aberto, o que torna a experiência incômoda para alguns públicos.
Essa seria, a meu ver, uma das suas irregularidades, mas é um filme que fica na cabeça justamente pela proposta pouco usual. E, acima de tudo, oferece a oportunidade de acompanhar Stephen Graham em um papel bastante diferente de seus trabalhos mais conhecidos.

Filme está disponível com exclusividade no Filmelier+, canal dentro do Prime Video
Onde assistir a “Bom Garoto”
“Bom Garoto” estreou nesta quinta-feira (10), com exclusividade no Filmelier+. O serviço está disponível como canal dentro do Prime Video e custa R$ 14,90 por mês, com sete dias de teste gratuito para novos assinantes.