O número de brasileiros que recorrem a um programa da Organização Internacional para as Migrações (OIM) para deixar Portugal e retornar ao Brasil cresceu mais de 50% nos primeiros sete meses de 2026, em comparação com o mesmo período do ano passado. O aumento é um dos sinais de que o chamado “sonho português” tem se transformado em desilusão para parte dos brasileiros que vivem no país europeu.
Ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), a OIM mantém em Portugal o programa Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração, destinado a imigrantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica que desejam voltar voluntariamente ao país de origem. O benefício pode ser solicitado independentemente da região onde a pessoa vive ou de sua situação migratória estar regularizada.
No formato atual, o programa existe desde 2024 e vem registrando crescimento na procura. Naquele ano, 432 brasileiros se inscreveram para receber apoio no retorno. O número já foi superado nos primeiros sete meses de 2026, já que até julho, foram contabilizados 470 pedidos.
Segundo os relatórios da OIM, a média mensal de solicitações de brasileiros passou de 44 em 2025 para 67 neste ano, um aumento de 52%. Embora o programa também atenda cidadãos de países como Venezuela, Sri Lanka e Moçambique, os brasileiros representam a maioria dos pedidos.
A dimensão da procura também chama atenção quando comparada à presença da comunidade brasileira em Portugal. Os brasileiros correspondem a cerca de 30% do total de imigrantes no país, mas representam aproximadamente 80% dos pedidos de retorno registrados pelo programa.
Entre as crianças atendidas, a predominância é ainda maior. Em 2025, 85 crianças retornaram ao Brasil com o auxílio da iniciativa, indicando que parte dos pedidos envolve famílias inteiras.
O apoio oferecido inclui a compra da passagem aérea e uma ajuda de custo de € 70, equivalente a cerca de R$ 415, para despesas durante a viagem. O bilhete e o valor são entregues pessoalmente por um funcionário do programa no dia do retorno.
Nem todos os inscritos, porém, chegam a concluir o processo. De acordo com os dados disponíveis, aproximadamente metade dos pedidos resulta efetivamente na viagem de volta. A OIM não detalha individualmente os motivos pelos quais os processos não são concluídos, mas um dos requisitos é a comprovação de vulnerabilidade econômica e da impossibilidade de custear o retorno por conta própria.
Outro fator que pesa na decisão é uma restrição para quem participa do programa. Após o retorno, o beneficiário fica impedido, por três anos, de entrar em Portugal e nos demais países do Espaço Schengen, área de livre circulação que atualmente reúne 29 países europeus.
A limitação acaba sendo decisiva para alguns imigrantes que, embora estejam decepcionados com a experiência em Portugal, ainda consideram tentar a vida em outro país europeu. Nesses casos, há quem prefira permanecer no país por mais algum tempo, reorganizar a vida financeiramente e buscar outro destino sem recorrer ao programa.
As razões que levam brasileiros a desistirem da vida em Portugal são variadas. Entre os casos estão pessoas que chegaram de forma irregular e encontraram dificuldades para conseguir emprego e regularizar a documentação, mas também imigrantes que desembarcaram com visto e uma oportunidade de trabalho definida e, posteriormente, se depararam com o alto custo de vida e, principalmente, da moradia.