Escondida sob uma escada próxima ao casarão principal do Solar do Unhão, em Salvador, uma instalação chama a atenção de quem circula pelo Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA). Com aparência de um pequeno estabelecimento comercial, o espaço funciona, de fato, como uma tradicional venda do interior.
Intitulada “Vendo a Venda”, a obra é da artista visual, professora e pesquisadora Iêda Oliveira e propõe uma experiência que mistura arte, memória e convivência. Quem chega ao local encontra cachaças, sucos, quitutes e outros produtos oferecidos por valores simbólicos.

A instalação é da artista visual, professora e pesquisadora Ieda Oliveira.
A própria artista prepara o que é servido, de acordo com a disponibilidade e a inspiração do dia. Por isso, não há um cardápio fixo: podem aparecer cuscuz de tapioca, bolinho de aipim, empanadas, caldos e outras preparações.
As cachaças também são produzidas por Iêda e ganham combinações com diferentes ervas e ingredientes, como capim-santo, milome, pau-tenente, gengibre, anis, cravo, canela, erva-cidreira, erva-doce e alecrim. Sucos de diferentes sabores completam a experiência.
A instalação “Vendo a Venda” foi criada e inaugurada em 2009, no próprio Museu de Arte Moderna da Bahia, onde ganhou sua primeira versão. Em 2025, a obra foi levada ao Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC-BA) em celebração aos 30 anos de trajetória artística de Iêda Oliveira. No início de 2026, a instalação retornou ao MAM Bahia, desta vez com curadoria de Raimundo Mundim, onde permanece em funcionamento.

Ieda é baiana e tem quase três décadas de trajetória, participando de importantes eventos e exposições no Brasil e no exterior.
Memórias do interior da Bahia
A inspiração para “Vendo a Venda” surgiu das lembranças da infância da artista em Varzedo, no Recôncavo Baiano, onde seu pai mantinha um estabelecimento semelhante.
“A venda é uma aproximação com as minhas experiências em Varzedo, que foi onde eu cresci. Meu pai tinha uma venda, então eu cresci dentro dessa estética da venda e participava desse convívio com as pessoas que iam na venda comprar”, conta.
Além da comida e das bebidas, a instalação pode ganhar música ao vivo. Em alguns momentos, Iêda deixa o balcão para cantar músicas que fazem parte de sua memória afetiva, com repertório que passa pelo universo da chamada música brega.
Para a artista, a interação com os visitantes é parte fundamental da própria obra.
“É um trabalho onde o artista e o público se encontram. Na medida em que eu venho aqui para trocar uma ideia com quem entra, a gente está desenvolvendo muitas coisas: amizade, experiência, compartilhando conhecimento. É uma obra que permite memórias”, explica.

As cachaças são preparadas pela própria artista, com diferentes combinações de ervas e ingredientes.
Quando visitar
O espaço é aberto pela própria Iêda, que costuma receber o público de quinta a domingo, geralmente das 15h30 às 18h. Em algumas semanas, a instalação também funciona às quartas-feiras. De setembro até novembro, a programação passará a acontecer às quartas, quintas, sábados e domingos, no mesmo horário. Em dias de apresentações de jazz no MAM, o funcionamento pode ser estendido.
Com quase três décadas de trajetória, Iêda Oliveira já participou de exposições e eventos no Brasil e no exterior, incluindo as bienais de São Paulo, Mercosul e Luanda. Em “Vendo a Venda”, ela prefere não restringir o trabalho a uma única linguagem.
“Hoje em dia, categorizar isso aqui como uma linguagem seria até inadequado, porque várias linguagens estão imersas nessa instalação”, afirma.

O espaço é aberto pela própria artista, que costuma estar no local de quinta-feira a domingo.