Na parte de baixo de uma escada bem próxima ao casarão principal do Solar do Unhão, em Salvador, há uma obra de arte que merece a atenção de quem circula pelo Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA). O local é escondido, com aparência de um pequeno estabelecimento comercial, e fica ainda mais interessante quando você descobre que tudo ali faz parte de uma instalação artística.
Intitulada de Vendo a Venda, a instalação é da artista visual, professora e pesquisadora Ieda Oliveira, que propõe uma experiência que mistura arte memória e convivência. A instalação funciona, de fato, como uma venda: quem passa pelo local pode encontrar cachaças, sucos, quitutes e outros produtos, oferecidos por valores simbólicos.

A instalação é da artista visual, professora e pesquisadora Ieda Oliveira.
É Iêda quem prepara os produtos oferecidos na “venda”, incluindo as bebidas e as comidas, sempre de acordo com a disponibilidade e com a inspiração do dia. O cardápio não é fixo e pode incluir cuscuz de tapioca, bolinho de aipim, empanadas, caldos e outras preparações.
As cachaças também são preparadas pela própria artista, com diferentes combinações de ervas e ingredientes, como capim-santo, milome, pau-tenente, pau-de-resposta, gengibre, anis, cravo, canela, erva-cidreira, erva-doce, alecrim e cambuí. O local oferece também sucos de limão com gengibre, graviola, jenipapo, coco e passas.

Ieda é baiana e tem quase três décadas de trajetória, participando de importantes eventos e exposições no Brasil e no exterior.
A experiência pode ganhar ainda uma trilha sonora ao vivo. Em alguns momentos, Iêda deixa de estar apenas atrás do balcão e assume o papel de cantora, interpretando músicas da playlist que acompanha a instalação. O repertório reúne canções que fizeram parte de sua memória afetiva e que transitam pelo universo da chamada música brega.
A inspiração para a obra veio da infância da artista na cidade de Varzedo, no Recôncavo Baiano. “A venda é uma aproximação com as minhas experiências em Varzedo, que foi onde eu cresci. Meu pai tinha uma venda, então eu cresci dentro dessa estética da venda e participava desse convívio com as pessoas que iam na venda comprar”, conta.

As cachaças são preparadas pela própria artista, com diferentes combinações de ervas e ingredientes.
O espaço é aberto pela própria artista, que costuma estar no local de quinta-feira a domingo, geralmente das 15h30 às 18h. Em algumas semanas, também funciona às quartas-feiras. Até outubro, a programação passará a acontecer às quartas, quintas, sábados e domingos, no mesmo horário. Nos dias em que há apresentações de jazz no MAM, o espaço pode permanecer aberto por mais tempo.
“É um trabalho onde o artista e o público se encontram. Na medida em que eu venho aqui para trocar uma ideia com quem entra, a gente está desenvolvendo muitas coisas: amizade, experiência, compartilhando conhecimento. É uma obra que permite memórias”, afirma.

O espaço é aberto pela própria artista, que costuma estar no local de quinta-feira a domingo.
Por reunir diferentes formas de expressão, Ieda também prefere não limitar a instalação a uma única categoria artística. Para ela, “Vendo a Venda” é, ao mesmo tempo, instalação, performance, pintura, desenho, escultura e intervenção.
“Hoje em dia, categorizar isso aqui como uma linguagem seria até inadequado, porque várias linguagens estão imensas nessa instalação”, finalizou Ieda, artista premiada que, ao longo de quase três décadas de trajetória, participou de importantes eventos e exposições no Brasil e no exterior, incluindo bienais de São Paulo, Mercosul e Luanda.