Um dos mais importantes patrimônios históricos e religiosos do Brasil, a Igreja de São Francisco, em Salvador, avança para uma nova etapa de recuperação. Tombado como patrimônio cultural brasileiro desde 1938, o monumento passará por um amplo processo de restauração e tem previsão de reabrir em 2029. A igreja está fechada desde 5 de fevereiro de 2025, quando parte do forro da nave central desabou sobre visitantes que estavam no interior do templo, matando uma turista paulista.
Antes do início da recuperação completa, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já executou intervenções emergenciais no local. As ações receberam investimento de R$ 2,4 milhões e incluíram a instalação de estruturas de estabilização, a catalogação e o armazenamento de peças remanescentes do forro do teto, além da renovação da cobertura da nave central da igreja.
Agora, a preparação para o restauro integral do complexo já está em andamento. Na primeira etapa do plano, estão previstos R$ 34,7 milhões em investimentos para uma série de obras que deverão ser executadas ao longo de 34 meses. Entre as ações já iniciadas está a estabilização do claustro, com aporte de R$ 1,8 milhão. Também está prevista a contratação dos projetos de restauração de todo o conjunto formado pela igreja e pelo convento, com investimento de R$ 2,9 milhões. Na sequência, será iniciada a restauração da igreja, estimada em R$ 30 milhões.
A expectativa é que todas as intervenções previstas nesta fase sejam concluídas até 2029, quando o monumento poderá voltar a receber visitantes.
O superintendente do Iphan na Bahia, Hermano Queiroz, ressaltou que a preservação do patrimônio histórico exige o envolvimento de diferentes setores da sociedade. “O cuidado com o patrimônio é uma responsabilidade compartilhada. Aqui na Igreja de São Francisco, há uma união de esforcos entre Iphan, a ordem franciscana, que é dona da Igreja, e outros entes públicos para a restauração do conjunto. E esperamos que a iniciativa privada e a sociedade civil também se envolvam, inclusive com apoio de recursos para a recuperação do complexo. Este pode ser um ótimo exemplo para todo o pais”, afirmou.
Plano de restauração será dividido em três etapas
O cronograma elaborado pelo Iphan e pelo Ministério da Cultura prevê a recuperação gradual de todo o Complexo da Igreja e Convento de São Francisco. As intervenções foram organizadas em três fases, de acordo com as necessidades de cada área do conjunto histórico.
O diretor do Departamento de Ações Estratégicas e Intersetoriais, Daniel Sombra, afirmou que a divisão do projeto em etapas permitirá a continuidade dos trabalhos sem interrupções.
“Com a finalização da ação emergencial na nave central da Igreja, já estamos dando os próximos passos com a contratação em fases dos projetos de restauração e obras de preservação do templo. A estratégia que estamos adotando é para que os trabalhos sigam continuamente, permitindo que a comunidade e o país possam visitar a Igreja novamente em um prazo previsto de 34 meses”, disse.
A primeira fase contempla a igreja, a portaria e a sacristia. Os projetos devem ser concluídos até julho, enquanto o início das obras está previsto para novembro deste ano. O investimento estimado é de R$ 30 milhões, com prazo de execução de 28 meses. Esse valor se soma aos R$ 4,7 milhões já destinados à estabilização do claustro e à elaboração dos projetos das três etapas.
A segunda fase abrangerá o claustro e a sala do capítulo. Os projetos devem ficar prontos até março de 2027, e a restauração está inicialmente estimada em R$ 15 milhões, com duração prevista de 12 meses.
Já a terceira etapa será voltada para a ala conventual. Os projetos também têm conclusão prevista para março de 2027. O investimento estimado é de R$ 8 milhões, e a execução deverá durar cerca de seis meses.
Os valores e os prazos ainda são estimativas e poderão ser ajustados conforme o avanço dos projetos técnicos.
Obras emergenciais prepararam o templo para a restauração
De acordo com o Iphan, a recuperação da Igreja de São Francisco exige alto nível de especialização devido à idade do imóvel, que possui mais de três séculos, e à presença de diversos elementos artísticos integrados que precisam ser preservados.
A diretora do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (Depam), Elisa Taveira, destacou que uma força-tarefa foi mobilizada logo após o acidente para garantir a segurança da estrutura e preparar o local para o restauro definitivo.
“Imediatamente após o acidente, convocamos uma força-tarefa unindo técnicos do Iphan de todo o Brasil, junto com nossa equipe da Bahia, para iniciar as obras emergenciais, com minucioso rigor técnico, para preparar a igreja para o restauro completo”, detalhou.
As ações emergenciais executadas ao longo do último ano foram concentradas em três frentes principais: a catalogação e guarda das peças remanescentes, a estabilização do forro do teto para garantir segurança imediata e o reforço da cobertura com a instalação de um novo telhado.
Relembre o acidente
A publicitária Giulia Panchoni Righetto, de 26 anos, era natural de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, ela visitava Salvador com amigos. Todos os atingidos eram turistas. Cinco pessoas ficaram feridas e foram socorridas. Equipes da Defesa Civil e da Polícia Militar atenderam a ocorrência, e o interior do templo ficou coberto por destroços de madeira após o colapso da estrutura.
Na ocasião, o diretor da Defesa Civil de Salvador (Codesal), Sosthenes Macêdo, afirmou que a suspeita inicial era de que fatores como idade do prédio e manutenção poderiam ter contribuído para o acidente, embora não houvesse indícios prévios de risco iminente. Após o episódio, a igreja foi interditada e segue fechada desde então.
Conhecida como “Igreja de Ouro”, a construção é considerada uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no mundo e figura entre os principais pontos turísticos do Centro Histórico de Salvador.