O processo de beatificação e canonização da baiana Madre Vitória da Encarnação deu mais um passo. A documentação da causa foi oficialmente aberta em Roma, no Dicastério das Causas dos Santos, organismo da Santa Sé responsável pela análise dos processos desta natureza. O ato representa mais uma etapa no caminho que poderá levar aos altares essa religiosa clarissa baiana.
Estiveram presentes à abertura da documentação o postulador da Causa, Frei Jociel Gomes, OFMCap, e a Irmã Elsa Orque, SFI, que acompanham o processo junto à Santa Sé. A partir dessa etapa, aguarda-se a emissão do Decreto de Validade Jurídica e a nomeação do relator responsável por acompanhar a elaboração da Positio, documento que reúne os elementos necessários para o estudo aprofundado da vida, das virtudes e da fama de santidade da Serva de Deus.
A Positio será submetida à análise das comissões competentes do Vaticano, que avaliarão os fundamentos da causa. Esse trabalho integra o percurso estabelecido pela Igreja para reconhecer oficialmente a santidade de uma pessoa e verificar se ela viveu as virtudes cristãs de maneira heroica.
O processo de beatificação da baiana começou há sete anos. Em 7 de julho de 2019, a Congregação para a Causa dos Santos emitiu o decreto “Nihil Obstat”, autorizando a abertura da causa de beatificação da Madre Vitória, que passou a ser chamada, a partir de então, de Serva de Deus Vitória da Encarnação. Em 19 de novembro do mesmo ano, o então Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, presidiu a cerimônia de abertura do Processo de Beatificação e Canonização da Madre Vitória da Encarnação.
Madre Vitória da Encarnação nasceu em Salvador, em 6 de março de 1661, sendo batizada no mesmo ano na antiga Sé da Bahia. Filha de Bartolomeu Nabo Correia e Luísa Bixarxe, ela teve um irmão e três irmãs. Em 1677, quando foi fundado o Convento Santa Clara do Desterro, sendo o seu pai muito devoto, quis que sua filha entrasse para a vida religiosa, mas a menina não quis. Após alguns anos, Vitória começou a ter frequentes sonhos com a Mãe de Deus e seu Divino Filho e chamava-a para a vida religiosa.
No ano de 1686, quando estava com 25 anos, Vitória teve um sonho horrendo, no qual se via nos porões sujos e cheios de lodo de uma grande embarcação que navegava em alto mar, acompanhada de pessoas impiedosas, que caminhavam para a perdição, e, na parte de cima da embarcação, havia muitos religiosos que caminhavam para a salvação. No sonho, seu Anjo da Guarda então lhe explicava que os navegantes da parte superior eram os que faziam a vontade de Deus e estavam salvos, enquanto que os que estavam nos porões, assim como ela, eram os que caminhavam para a perdição.
Ao acordar do sonho, ela decidiu seguir a vida religiosa. Naquele mesmo ano, em 29 de setembro, dia de São Miguel Arcanjo, Vitória foi acolhida no noviciado das clarissas do Convento do Desterro da Bahia junto à sua irmã, Maria da Conceição. Recebeu neste dia o nome religioso de Vitória da Encarnação.
Desapegada de tudo o que é mundano, quis fazer-se a menor de todas e aquela que servia a todas. Dotada de imensa caridade para com os mais desvalidos, desejou viver como uma escrava e adotou para si o estilo de vida das servas que viviam no mosteiro. Fazia suas refeições sentada no chão, como era costume entre os escravos da época; corria para fazer os trabalhos que ninguém queria. Dotada de dons místicos, transfigurava-se quando fazia a via-sacra, todas as sextas-feiras do ano e se castigava.
Madre Vitória faleceu numa sexta-feira, às 15 horas, em 19 de julho de 1715. Os restos mortais da Madre Vitória da Encarnação encontram-se na Igreja do Convento Santa Clara do Desterro, em Salvador, e estão depositados acima de uma das portas que ligam o coro de baixo à nave do templo.