A OpenAI afirmou ter solucionado em apenas 88 horas uma questão ligada às equações de Navier-Stokes que desafia matemáticos há cerca de 90 anos. O resultado, produzido por um sistema com aproximadamente 10 mil agentes de inteligência artificial, ainda precisa passar pelo escrutínio independente da comunidade científica.
As equações de Navier-Stokes descrevem o movimento de fluidos e são usadas em áreas que vão da aerodinâmica ao estudo do fluxo sanguíneo. O problema em aberto busca determinar se, em três dimensões, soluções inicialmente regulares permanecem sempre suaves ou podem desenvolver uma singularidade — um ponto em que determinadas grandezas matemáticas deixam de se comportar de maneira regular. A questão integra os Problemas do Milênio, associados a um prêmio de US$ 1 milhão.
Segundo a empresa, milhares de agentes trabalharam simultaneamente, trocaram cerca de 2,7 milhões de mensagens e produziram aproximadamente 130 bilhões de tokens durante a busca. A solução foi alcançada em 5 de setembro, 88 horas após o início dos trabalhos, e levou outras 17 horas para ser formalizada e verificada no sistema matemático Lean. A companhia informou que não pretende reivindicar o prêmio do Instituto Clay.
O anúncio, porém, veio acompanhado de uma disputa sobre como o projeto começou. Tristan Buckmaster, professor da Universidade de Nova York, e Levent Alpöge, matemático que trabalha na Anthropic, desenvolviam havia meses uma pesquisa relacionada e utilizavam ferramentas de IA, entre elas o Codex. Buckmaster afirmou que soube em setembro que informações sobre o avanço da dupla haviam chegado à companhia e questionou se os rascunhos colocados no sistema poderiam ter influenciado o treinamento dos modelos.
O próprio Buckmaster ressalvou que não sabe se os dados foram utilizados. “Não sei se nossos dados foram usados. Não estou acusando ninguém de nada”, afirmou. Ele decidiu tornar públicas as conversas porque, segundo seu relato, a empresa começou a atacar os Problemas do Milênio depois de ouvir rumores sobre o avanço dele e de Alpöge. A companhia confirma que iniciou o esforço em 1º de setembro após receber esses rumores.
A empresa nega ter consultado diretamente o trabalho privado da dupla antes de sua divulgação. Em sua versão, pesquisadores e agentes não tiveram acesso a dados específicos dos dois matemáticos durante a resolução. Ao mesmo tempo, admitiu que, embora considere improvável, não pode descartar que informações desidentificadas provenientes do uso de seus produtos tenham contribuído anteriormente para melhorar os modelos. Essa ressalva ampliou o debate sobre o destino de pesquisas inéditas inseridas em ferramentas de inteligência artificial.
A controvérsia também envolve uma conversa entre Buckmaster e Sébastien Bubeck, pesquisador da companhia. O professor afirma que recebeu uma proposta na qual Alpöge ficaria de fora de uma eventual autoria ligada ao resultado por trabalhar na Anthropic. Bubeck contesta essa interpretação e diz que nunca pediu que o matemático fosse retirado do crédito por seu próprio trabalho, mas considerava inadequado que um funcionário de uma concorrente assinasse uma prova produzida internamente pela empresa.
Além da disputa sobre dados e autoria, permanece a questão central: a prova ainda precisa ser examinada por matemáticos independentes antes que o problema possa ser considerado definitivamente encerrado. O resultado publicado mostra que determinadas soluções das equações podem desenvolver uma singularidade em tempo finito, mas sua validade e seu alcance serão agora submetidos à avaliação da comunidade matemática.