A lenda é real: ciência confirma pela primeira vez a existência do veado preto no Brasil

A lenda é real: ciência confirma pela primeira vez a existência do veado preto no Brasil

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Gabriel Moura

Taile Emanuele

Publicado em 22/08/2026 às 17:50

Pesquisadores registraram pela primeira vez a existência de cervos-do-pantanal com melanismo, condição que deixa a pelagem dos animais muito mais escura que o tom castanho-avermelhado característico da espécie. Três exemplares de Blastocerus dichotomus foram documentados durante um monitoramento de fauna realizado com drones e armadilhas fotográficas: uma fêmea no Pantanal e dois machos no Cerrado. A descoberta foi publicada na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos em um estudo de pesquisadores da Onçafari e da Embrapa Pantanal.

O registro encerra décadas de incerteza em torno dos chamados cervos pretos, conhecidos até então por relatos de pescadores pantaneiros. A pelagem dos animais identificados varia de um castanho muito fechado ao preto, dependendo da distância e das condições de observação. No Pantanal, existe inclusive uma baía chamada Cervo Preto, próxima à Estação Ecológica Taiamã, no Mato Grosso, mas o nome era associado a um animal cuja existência ainda não havia sido comprovada. “O Brasil tem muito a revelar. Mesmo um animal grande e vistoso como esse, que vive em áreas abertas, conseguiu passar despercebido por tanto tempo”, afirmou em entrevista ao jornal O Globo o biólogo Eduardo Fragoso, da Onçafari e um dos autores do estudo.

A fêmea foi observada uma única vez na Caiman Pantanal, base da Onçafari no Mato Grosso do Sul. Os dois machos foram registrados nos campos úmidos do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, entre Minas Gerais e Bahia, e voltaram a aparecer durante o acompanhamento. Depois da realização do estudo, outro macho, mais jovem, também foi avistado no Cerrado. O cervo-do-pantanal é o maior e mais alto cervo do Brasil e pode alcançar 1,30 metro de altura, sem contar a galhada dos machos. “A imagem de um animal desses, tão escuro e majestoso, causa enorme impacto. Não à toa há uma mística em torno dele”, disse Walfrido Tomas, especialista em cervos e pesquisador da Embrapa Pantanal.

A origem do melanismo nos animais ainda não foi esclarecida. A característica está associada a uma mutação que provoca produção excessiva de melanina e, em alguns casos, pode representar uma desvantagem. A pelagem escura absorve mais calor e pode dificultar a camuflagem em ambientes abertos e quentes, onde a coloração avermelhada do cervo se aproxima dos tons da vegetação e ajuda o animal a se esconder de onças e caçadores ilegais.

O cenário no Cerrado chamou ainda mais atenção dos pesquisadores. Entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, os cervos escuros corresponderam a 66,7% das observações da espécie no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, onde o cervo-do-pantanal está criticamente ameaçado de extinção. Uma das hipóteses é que o melanismo esteja ligado a um gargalo genético provocado pela endogamia em uma população pequena e isolada. A explicação, porém, não se aplica facilmente ao Pantanal, que concentra 88% dos cerca de 40 mil cervos-do-pantanal existentes no país. “O que animais escuros fazem em lugares tão claros e quentes? Não temos boas hipóteses para isso até agora”, observou Fragoso.

O parque também abriga uma população expressiva de onças-pintadas pretas e já teve registros de um gato-palheiro e de um gato-do-mato-pequeno melânicos. Segundo os pesquisadores, os animais de pelagem escura observados na região não buscam abrigo do calor em áreas mais frescas e são vistos sob sol forte em espaços abertos. “Estudos como esse são fundamentais não apenas para a compreensão da biodiversidade, mas para o desenvolvimento de estratégias de conservação”, destacou Fragoso.

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