Baiana transforma saberes ancestrais em livro e cria projeto que valoriza a culinária do sul da Bahia

Baiana transforma saberes ancestrais em livro e cria projeto que valoriza a culinária do sul da Bahia

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

José Mion/Alô Alô Bahia

Acervo Pessoal via Estadão

Publicado em 28/07/2026 às 09:09 / Leia em 4 minutos

Nascida na Bahia, Iza Souza saiu do povoado onde vivia há 19 anos para recomeçar a vida em Trancoso, no sul do estado. Professora de formação, não encontrou oportunidade na área e passou a trabalhar como empregada doméstica em casas de ricos e famosos. Foi na cozinha, por necessidade, que descobriu uma nova profissão e também uma missão.

Sem sequer saber fritar um ovo quando chegou à cidade, ela aprendeu gastronomia na prática, fez cursos por conta própria e decidiu seguir um caminho diferente do ensino tradicional. Em vez de reproduzir apenas técnicas europeias, passou a pesquisar os saberes culinários de marisqueiros, cozinheiras populares, comunidades quilombolas e indígenas, resgatando receitas e tradições que conheceu ainda na infância.

O resultado desse trabalho acaba de ganhar um novo capítulo com o lançamento do e-book “Comida é Cura: Saberes Ancestrais do Sul da Bahia”, disponível por R$ 29,90 no perfil @manjar_ancestral. Hoje, além de cozinheira, Iza também é escritora e estudante de Antropologia na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

Iza Souza | Foto: Acervo Pessoal via Estadão

Foi em Trancoso que nasceu também o Manjar Ancestral, inicialmente criado como um perfil no Instagram, hoje com cerca de 46 mil seguidores, para compartilhar receitas, técnicas e histórias da gastronomia afro-indígena do sul da Bahia. O projeto evoluiu para uma pesquisa autoral, que reúne investigação acadêmica e valorização dos saberes tradicionais.

Segundo Iza, a decisão de registrar esse patrimônio cultural surgiu após uma experiência marcante em um festival gastronômico, onde conheceu a carreta-escola do Senac, que tinha cursos de gastronomia. “Foi meu primeiro contato formal com a cozinha e o que despertou em mim a vontade de estudar para ser cozinheira”, disse em recente entrevista ao Estadão.

Ela conta que, em 2018, participou do Enchefs Bahia com um prato inspirado na culinária afro-indígena, mas não foi selecionada. A partir daí, mergulhou em pesquisas, ouviu moradores de povoados, retomou as histórias contadas pelo pai sobre as receitas das avós e passou a documentar técnicas tradicionais, muitas delas sem saber que realizava um trabalho de caráter etnográfico. “Meu pai, que cozinhava para mim quando eu era criança, tornou-se um portal de conhecimento. Ele me contou sobre as culinárias das minhas avós. Havia muita técnica, sabor e tradição”, lembra.

E-book está disponível no perfil do projeto Manjar Ancestral

O reconhecimento veio em 2021, quando voltou ao mesmo festival e conquistou o Prêmio Dolmã, além do título de Embaixadora da Gastronomia da Bahia. Foi, então, que ela compreendeu definitivamente que precisava cozinhar e escrever para que seu povo não desaparecesse.

Para Iza, o crescente interesse de chefs pela culinária ancestral é positivo, desde que venha acompanhado de reconhecimento das comunidades que preservam esses conhecimentos. “Eu sempre digo que o brasileiro precisa aprender a comer o Brasil. Mas precisa aprender a comer o Brasil da forma como a comida brasileira foi construída. Não apenas um Brasil remodelado por técnicas europeias”, destaca.

Ela defende que os saberes tradicionais sejam valorizados, creditados e remunerados, evitando que receitas e ingredientes sejam apropriados sem referência às suas origens. “A cozinha afro-indígena, que é a minha história, não é minimalista. Ela é terrosa, intensa, cheia de misturas”, reforça, aproveitando para criticar adaptações que descaracterizam pratos tradicionais. “Moqueca, meu amor, tem de ter dendê. Se não tiver, se for descaracterizada, você pode dar o nome que quiser. Mas não chame de moqueca”, provoca.

Além da cozinha, Iza vê na pesquisa um caminho para preservar esse patrimônio cultural para as próximas gerações. Ela afirma que pretende continuar pesquisando e cozinhando, mas tem uma motivação pessoal para seguir documentando esses saberes, que é sua família, em especial sua neta. “Desejo que ela tenha acesso a esse patrimônio cultural alimentar por meio da pesquisa e da prática da avó dela. Sinto que esse é o meu legado”, diz.

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