Filha de baiano, desembargadora relata racismo estrutural em mercado: ‘Sem a toga, sou apenas mais um corpo preto’

Filha de baiano, desembargadora relata racismo estrutural em mercado: ‘Sem a toga, sou apenas mais um corpo preto’

Redação Alô Alô Bahia

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Redação Alô Alô Bahia

Reprodução / Redes sociais

Publicado em 21/05/2026 às 02:08 / Leia em 3 minutos

A desembargadora Adenir Carruesco, do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, relatou ter sido vítima de racismo estrutural durante uma ida a um supermercado em Cuiabá, no Mato Grosso, no último domingo (17). Filha de Selvino Alves da Silva, nascido no interior da Bahia, a magistrada compartilhou o episódio nas redes sociais.

Segundo a magistrada, ela fazia compras após uma caminhada matinal quando foi abordada de forma insistente por uma cliente, que a confundiu com funcionária do estabelecimento e passou a pedir informações sobre produtos.

O relato foi publicado nas redes sociais da desembargadora, que afirmou que o episódio evidencia a lógica social que ainda associa pessoas negras, especialmente mulheres negras, a posições de serviço.

Adenir Carruesco

“O lugar natural do preto é o serviço. A lógica diz: ‘Preto não é juiz. Preto não é desembargador’. Eu, desembargadora, sem a toga, sou apenas mais um corpo preto que a razão brasileira insiste em enxergar como serviçal”, escreveu.

Carruesco destacou que estava vestida com roupas esportivas no momento da abordagem e afirmou que, para a cliente, parecia natural presumir que ela trabalhava no supermercado.

A magistrada ponderou que não considera o episódio um ataque racista direto individualizado, mas reflexo de uma estrutura social historicamente construída no Brasil.

“Essa senhora não cometeu nenhum ato racista. Ela agiu pela lógica que o senso comum brasileiro internalizou”, afirmou.

No desabafo, Adenir Carruesco também chamou atenção para a baixa presença de pessoas negras em espaços de poder e representação institucional no país. “É uma lógica que precisa ser desmontada, um domingo de cada vez”, concluiu.

Segundo a Polícia Civil do Mato Grosso, não foi registrado um boletim de ocorrência sobre o caso.

Veja vídeo:

Adenir Carruesco é magistrada trabalhista e atual presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, em Mato Grosso. Ela se tornou a primeira desembargadora negra de carreira a presidir a Corte no estado.

De acordo com informações obtidas pelo Alô Alô Bahia, o pai da magistrada, Selvino Alves da Silva, nasceu no interior da Bahia e trabalhou na zona rural antes de se tornar caminhoneiro. Ele se aposentou aos 80 anos.

Natural do Paraná, Adenir nasceu em 1965 e é filha de trabalhadores rurais — o pai baiano e a mãe mineira. Criada em uma família humilde, com pais analfabetos, iniciou os estudos na zona rural e construiu sua trajetória acadêmica conciliando trabalho e faculdade de Direito.

Ingressou na magistratura trabalhista em 1994 e atuou por décadas no interior de Mato Grosso, especialmente em Rondonópolis, antes de assumir o cargo de desembargadora, em 2021. Em 2023, tomou posse como presidente do TRT-MT para o biênio 2024/2025.

Nos últimos anos, também ganhou projeção nacional por entrevistas e posicionamentos sobre racismo estrutural, representatividade negra no Judiciário e igualdade de oportunidades.

 

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