13 Jan 2022
Onda de calor na América do Sul registra recordes próximos aos 50ºC
A cidade de San Antonio Oeste, na Patagônia argentina, por exemplo, registrou 42,8ºC na última segunda-feira (10), e a província de Mendoza, conhecida pela produção de vinhos de excelência, foi colocada sob alerta vermelho. Em Buenos Aires, na terça (11), a previsão de máxima de 37ºC foi superada. Os termômetros marcaram 40ºC às 16h locais, a maior temperatura desde 1995. A cidade chegou a ter apagão por conta da quantidade de aparelhos de ar-condicionado ligados.
A expectativa, segundo a MetSul, empresa de meteorologia gaúcha, é que o calor só cresça nos próximos dias, com localidades na Argentina registrando entre 45ºC e 47ºC. No Brasil, as temperaturas mais altas devem ser marcadas no oeste do Rio Grande do Sul, com máximas entre 10ºC e 15ºC, bastante acima da média nesta época. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu aviso de perigo para 216 municípios do estado. Até regiões mais frias, como a Serra Gaúcha, podem ter máximas de até 37ºC, nos vales de Farroupilha e Bento Gonçalves.
O impacto da onda extrema deve ser sentido principalmente pelos agricultores. A região sofreu perdas significativas com a profunda seca que marcou 2021, e as temperaturas elevadas podem agravar a situação. No sul do Brasil, 159 municípios estão em situação de emergência devido à estiagem, que começou em novembro. Os prejuízos atingem produção de grãos, frutas, hortigranjeiros e leite.
Além das perdas econômicas, há ainda risco de incêndios florestais e quedas de energia, como os registrados no Uruguai, no começo do ano. Os primeiros dias de 2022 foram marcados pela perda de 37 mil hectares nas regiões de Paysandú e Río Negro, a maior queimada da história do país. Já a falta de energia está associada à alta demanda e ao baixo nível dos rios que abastecem as hidrelétricas.
Segundo o climatologista e professor de ciências atmosféricas da USP, Pedro Leite da Silva Dias, em entrevista à BBC, a onda de calor está ainda associada às fortes chuvas registradas na Bahia e em Minas Gerais nas últimas semanas. O bloqueio de alta pressão atmosférica impede que as chuvas se desloquem para o sul, fazendo com que elas fiquem retidas sobre as regiões Nordeste e Sudeste do Brasil. "Funciona como uma gangorra. Enquanto o centro da América Latina experimenta seca e calor, o Nordeste e Sudeste brasileiros sofrem com a chuva", diz.
De acordo com ele, há ainda relação com o La Niña, que se desenvolve quando ventos que sopram sobre o Pacífico empurram as águas quentes da superfície para o oeste, em direção à Indonésia, provocando grandes mudanças climáticas em diferentes partes do mundo. "A atmosfera está toda conectada e um fenômeno anômalo nunca acontece de forma isolada", explica. Ele reforça ainda que há registros de eventos extremos associados ao La Ninã há pelo menos 2 milhões de anos, mas os efeitos negativos estão cada vez mais intensos.
Foto: Enrique García Medina/EFE. Siga a gente no Instagram @sitealoalobahia.



