O possível fim ou restrição do mercado de apostas esportivas no Brasil provocou uma reação forte entre clubes e entidades do futebol. Em manifesto divulgado na última semana, equipes como Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Santos, Botafogo, Fluminense e Vasco defenderam a manutenção do mercado regulado e alertaram que uma mudança abrupta poderia provocar um impacto profundo nas finanças do esporte. O documento chegou a afirmar que, sem o mercado regulado, “o futebol é quem acaba”.
O discurso dos clubes encontra respaldo em um dado importante de que as casas de apostas se tornaram, de fato, uma das principais forças do mercado de patrocínios do futebol brasileiro. Em 2025, as bets destinaram cerca de R$ 1,03 bilhão aos 20 clubes que disputaram a Série A, segundo levantamento da consultoria Convocados. O valor representa um crescimento de aproximadamente 66% em relação aos R$ 618 milhões registrados em 2024.
Mas, quando o valor é colocado diante de todas as receitas dos clubes, a fotografia muda de proporção. Os R$ 1,03 bilhão correspondem a 7,2% dos R$ 14,3 bilhões arrecadados pela Série A em 2025. Ou seja, embora seja uma receita bilionária e tenha ganhado espaço rapidamente, o dinheiro das bets não representa a maior parte do caixa dos clubes.
A diferença fica ainda mais clara quando se observa de onde veio o dinheiro. As receitas comerciais dos clubes somaram R$ 3,069 bilhões em 2025. Nesse recorte, os R$ 1,03 bilhão das casas de apostas equivalem a aproximadamente 33,6%, ou cerca de um em cada três reais arrecadados comercialmente.
É justamente essa diferença de perspectiva que está no centro da discussão. Para o orçamento global dos clubes, as bets são uma fatia minoritária. Para a área comercial, porém, tornaram-se uma fonte de peso considerável. E a dependência não é igual entre todas as equipes.
O Flamengo, por exemplo, aparece entre os clubes mais expostos ao dinheiro das apostas. Segundo o levantamento, o contrato com a Betano, estimado em R$ 268 milhões anuais, representou cerca de 13,6% das receitas totais do clube em 2025. Vasco e Sport também aparecem entre as equipes com maior proporção de receitas vinculadas aos patrocínios de bets.
Outro ponto que ajuda a explicar a preocupação dos dirigentes é que o debate não se limita ao patrocínio estampado na camisa. Os clubes argumentam que o dinheiro das apostas também movimenta outros segmentos da cadeia esportiva, incluindo publicidade, transmissões e diferentes ativos comerciais. Por isso, uma eventual retração do setor poderia produzir efeitos indiretos superiores ao valor dos contratos de patrocínio considerados isoladamente.
Ainda assim, os números mostram que existem outras fontes relevantes de receita. Em 2025, as transferências de jogadores movimentaram R$ 3,915 bilhões entre os clubes da Série A, enquanto os direitos de transmissão chegaram a R$ 3,142 bilhões. As receitas comerciais, que incluem os patrocínios, ficaram em R$ 3,069 bilhões.
A reação dos clubes acontece enquanto o governo federal avalia medidas relacionadas ao mercado de apostas. Segundo o ge, a discussão governamental envolve principalmente a possibilidade de restringir jogos de cassino on-line, que representam parcela importante da receita das operadoras, e não necessariamente eliminar as apostas esportivas. Dirigentes temem, porém, que uma eventual redução da atividade das empresas diminua também os investimentos destinados ao futebol.