De sparring na Rio-2016 à principal atleta da seleção brasileira de boxe da atualidade. Aos 33 anos, a baiana Bia Ferreira voltou a concentrar esforços no boxe olímpico para tentar conquistar, em Los Angeles-2028, o único título que ainda falta em sua carreira, que é a medalha de ouro olímpica.
A trajetória começou justamente nos Jogos do Rio, em 2016, quando Bia participou do projeto Vivência Olímpica e foi parceira de treino da também baiana Adriana Araújo, primeira brasileira medalhista olímpica no boxe feminino, com o bronze em Londres-2012. A experiência chamou a atenção dos técnicos da seleção, e, no ano seguinte, Bia entrou para a equipe permanente.
“A Rio-2016 foi onde tudo começou. Quando passei a realizar meus sonhos, meu primeiro contato com atletas profissionais e quando decidi ser uma boxeadora de alto rendimento”, lembra Bia. “Lá atrás, meu sonho era pequenininho: chegar à equipe olímpica e treinar com quem representava meu país. Depois é que sonhei com as principais competições, incluindo a Olimpíada. Foi a Rio-2016 que me fez amar e me entregar ao boxe e que abriu as portas do mundo para mim”, lembra em entrevista ao jornal O Globo.
Desde então, Bia se consolidou entre as principais boxeadoras do país. Foi prata em Tóquio-2020 e bronze em Paris-2024, além de conquistar dois títulos mundiais, dois ouros em Jogos Pan-Americanos e cinco títulos brasileiros.
Depois de Paris, Bia chegou a se dedicar exclusivamente ao boxe profissional. Em 2024, conquistou o cinturão dos leves (61kg) da Federação Internacional de Boxe (IBF) ao derrotar a argentina Yanina del Carmen Lescano. No profissional, acumula oito vitórias e uma derrota, sofrida diante da turca Elif Nur Turhan, em dezembro de 2025.
Mesmo assim, a relação com o boxe olímpico nunca terminou. “Nunca abandonei o boxe olímpico. Se tivesse vindo o ouro em Tóquio ou Paris, a história poderia ser outra”, conta.
Em 2025, ela cumpriu o plano de se dedicar apenas ao profissional, experiência que incluiu campings no exterior, lutas em Mônaco, hotéis de luxo e todo o glamour associado à modalidade. “Tem esse glamour. Lutei duas vezes em Mônaco. Tudo é um espetáculo, uma noite planejada só para você”, comenta.
Apesar das novas experiências, Bia sentiu falta da rotina da seleção. “Em 2025, quando só fiz profissional, senti falta do olímpico. Gosto de resenhar, de estar em grupo. E o profissional é mais solitário”, revela.
A volta ao olímpico também acontece em um cenário diferente. Nos Jogos do Rio, Bia competia nos 60kg. Agora, está nos 65kg, categoria que fará parte do programa do boxe em Los Angeles-2028, edição que terá igualdade no número de divisões de peso entre homens e mulheres.
A estreia na nova categoria foi promissora. Após disputar o Campeonato Brasileiro nos 60kg por um equívoco na inscrição, Bia viajou para a China com a seleção e venceu a Copa do Mundo de Guiyang nos 65kg. No caminho até o título, derrotou por decisão unânime a atual campeã mundial, a cazaque Aida Abikeyeva, e, na final, a britânica Sacha Hickey.
A nova categoria também trouxe uma mudança importante na rotina. Nos 60kg, Bia precisava controlar mais a alimentação e a hidratação antes das pesagens. Nos 65kg, passou a competir com maior liberdade. “Agora eu como até mais, dependendo da situação. Antes, na véspera da pesagem tinha de abrir mão do jantar. Era a famosa ‘noite de cão’. Bem alimentada e hidratada, o corpo reage. Em contrapartida, minhas rivais que já eram grandes dobraram de tamanho”, brinca.
Com a corrida olímpica já iniciada, Bia deverá priorizar a classificação para Los Angeles a partir deste ano, embora ainda não saiba se manterá uma carreira híbrida no futuro. “Sei que tenho boxe suficiente para ser uma campeã olímpica, é o único título que me falta. Mas também estou feliz com a Matchroom. Estou deixando acontecer”, diz.