“Corrida dos Bichos” aposta no espetáculo e acerta ao criar uma distopia com identidade brasileira

“Corrida dos Bichos” aposta no espetáculo e acerta ao criar uma distopia com identidade brasileira

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Laura Campanella

Publicado em 10/08/2026 às 08:21

“Corrida dos Bichos”, novo filme do Prime Video dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, parte de uma ideia bastante curiosa de transformar o jogo do bicho em uma competição esportiva brutal, ambientada em um Brasil devastado por uma catástrofe ambiental. O resultado é uma ficção distópica que não chega a reinventar o gênero, mas encontra uma identidade própria ao misturar referências conhecidas com elementos essencialmente brasileiros.

E é justamente quando coloca seus personagens para correr que o filme funciona melhor. As sequências de ação são, de longe, o grande trunfo da produção. Parkour, capoeira, artes marciais e uma câmera que acompanha os competidores de maneira bastante dinâmica dão às corridas uma energia impressionante. Há velocidade, criatividade e uma sensação de perigo que tornam esses momentos muito mais interessantes do que boa parte do que acontece entre uma disputa e outra.

Matheus Abreu vive o protagonista Mano, o “Gato” na Corrida dos Bichos | Foto: Laura Campanella

A escolha de transformar o jogo do bicho em um grande espetáculo também é feliz. O filme pega algo profundamente associado à cultura brasileira e o leva para um universo futurista e distópico, criando uma competição com regras próprias e visual marcante. É uma fórmula que remete a blockbusters como “Jogos Vorazes”, mas que ganha personalidade justamente por ser atravessada por elementos como a desigualdade social, a capoeira e o Rio de Janeiro.

“Corrida dos Bichos” também não esconde sua crítica social. A competição é, afinal, uma forma de entretenimento construída sobre a exploração dos mais pobres por uma elite que controla as regras do jogo. O filme fala de desigualdade, autoritarismo e da transformação da violência em espetáculo sem precisar abandonar completamente sua vocação de entretenimento. O problema aparece quando a corrida termina.

Cenas de ação são destaque no filme | Foto: Laura Campanella

Por mais interessante que seja o universo criado pelos diretores, o roteiro não consegue manter a mesma força das sequências de ação. Os personagens e seus conflitos nem sempre despertam o mesmo interesse que a própria competição, e algumas passagens dramáticas parecem existir mais para levar a história de uma corrida à outra do que para aprofundar aquele mundo.

Rodrigo Santoro é um dos destaques do elenco como Abu, personagem que ocupa uma posição importante dentro da estrutura de poder da competição. Ele ajuda a dar dimensão ao conflito entre quem controla o espetáculo e quem precisa se colocar em risco para sobreviver a ele.

Também existe uma certa familiaridade na estrutura. “Corrida dos Bichos” não está descobrindo um novo caminho para o cinema distópico. A história de uma sociedade desigual em que pessoas são transformadas em entretenimento para uma elite já foi contada algumas vezes. A diferença está em como o filme incorpora referências brasileiras a essa fórmula. E isso é suficiente para torná-lo interessante.

Elenco traz grandes nomes da dramaturgia nacional e novos destaques | Foto: Laura Campanella

Há algo particularmente estimulante em assistir a uma produção de gênero com escala internacional sem que ela precise abrir mão de elementos que a identificam como brasileira. O jogo do bicho, a capoeira, o parkour e o próprio Rio de Janeiro não aparecem apenas como decoração e fazem parte da identidade do filme.

No fim, “Corrida dos Bichos” é mais bem-sucedido como experiência visual e de ação do que como drama. O roteiro poderia ser mais consistente e os personagens, mais bem desenvolvidos, mas quando a sirene toca e a corrida começa, o filme encontra seu ritmo e mostra por que essa ideia tinha potencial. É uma produção ambiciosa, divertida e visualmente inventiva, que talvez não entregue uma grande reinvenção da ficção distópica, mas consegue fazer algo mais importante, que é contar uma história conhecida por um ponto de vista que tem sotaque, cenário e referências brasileiras.

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