A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras foi recebida como um alívio pela indústria audiovisual do país. Em análise publicada após o resultado, a revista norte-americana Variety destacou o impacto político da disputa para o setor cultural e avaliou que a eleição representa uma derrota para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aliado de Bolsonaro, e uma vitória para o cinema nacional.
Segundo a publicação, cineastas brasileiros devem ter passado a noite comemorando o resultado, considerado histórico. Lula conquistou 51,79% dos votos e garantiu um quarto mandato presidencial. A Variety reforçou que foi a primeira vez na história das eleições democráticas brasileiras que um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar venceu a etapa decisiva.
A revista ressaltou que o resultado também afasta, ao menos neste momento, o temor de que o financiamento público ao cinema brasileiro sofra cortes expressivos, semelhantes aos promovidos pelo presidente argentino Javier Milei, caso Bolsonaro chegasse ao poder. A análise associa a vitória de Lula à continuidade de políticas públicas voltadas à cultura, além de avanços esperados nas áreas ambiental, social e de saúde.
Outro destaque foi a mobilização nas redes sociais durante a campanha. A publicação apontou que a articulação de fãs de artistas internacionais ajudou a ampliar o alcance da candidatura de Lula entre os eleitores mais jovens. Após o primeiro turno, perfis dedicados a nomes como Billie Eilish, Lady Gaga, Katseye, Demi Lovato, Harry Styles, Katy Perry e Selena Gomez passaram a utilizar suas plataformas para divulgar conteúdos favoráveis ao presidente. Segundo o jornal britânico The Guardian, mais de 600 grupos brasileiros de fãs apoiaram Lula antes da votação de 25 de outubro.
A mobilização chegou a ser mencionada pelo próprio presidente durante um ato político na Avenida Paulista, em São Paulo, que, segundo os organizadores, reuniu mais de um milhão de pessoas. “Não sei se começo este discurso com ‘companheiros’ ou ‘fandoms de todo o Brasil'”, disse Lula, em referência à participação dos grupos de fãs na campanha.
A Variety também destacou as disputas em torno das plataformas digitais. O Partido dos Trabalhadores acusou o Instagram, da Meta, de limitar o alcance e o áudio de publicações da campanha, além de prejudicar a visibilidade do perfil de Lula e sua presença nos mecanismos de busca. Em 19 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu à Meta 24 horas para demonstrar que não favorecia um dos candidatos nas recomendações de conteúdo. A empresa negou qualquer parcialidade, mas reconheceu que anúncios da campanha de Lula ficaram temporariamente indisponíveis por falhas técnicas.
Paralelamente, o deputado federal André Janones, apoiador de Lula, criou no WhatsApp o canal de transmissão “Exército de Lula”. A iniciativa incluiu uma entrevista de 90 minutos com o presidente e ultrapassou a marca de 10 milhões de integrantes até o segundo turno, segundo a revista.
O apoio ao petista também partiu de artistas brasileiros e internacionais. Nomes como Guillermo del Toro, Pedro Almodóvar, Mark Ruffalo, Tilda Swinton e Javier Bardem se juntaram a personalidades do Brasil em manifestações favoráveis à candidatura. O gesto de “fazer o L” com os dedos, em referência ao nome de Lula, ganhou espaço em eventos culturais, incluindo o Festival do Rio, no início de outubro.
A publicação relatou que o clima no festival mudou após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. Na ocasião, a Variety descreveu um ambiente marcado por “um véu visível de tristeza e melancolia” entre os profissionais do setor.
A preocupação tinha relação com o momento de projeção internacional vivido pelo audiovisual brasileiro. Nos últimos dois anos, produções nacionais conquistaram reconhecimento em importantes premiações e festivais. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional, enquanto “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, alcançou quatro indicações ao Oscar, um recorde para um filme brasileiro. Já “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, conquistou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Berlim em 2025.
Diante desse cenário, a revista avaliou que o cinema brasileiro estava sob risco caso houvesse uma mudança radical nas políticas públicas de incentivo. Com a vitória de Lula, porém, a expectativa é de continuidade do apoio governamental ao setor. Em seu discurso após o resultado eleitoral, no domingo (25), o presidente prometeu recursos públicos para áreas como saúde, livros e cultura.
Para a Variety, o novo mandato tende a manter o Brasil como uma referência regional em políticas públicas progressistas voltadas ao audiovisual, beneficiando não apenas os cineastas nacionais, mas também produções de outros países latino-americanos. A publicação destacou que o país é um parceiro importante para coproduções e um ponto de apoio para a indústria cinematográfica da região.