Fernanda Montenegro completa 97 anos nesta sexta-feira (16) como um dos nomes mais importantes da história da dramaturgia brasileira. Com mais de oito décadas dedicadas à arte, a atriz construiu uma trajetória que atravessa o teatro, o cinema e a televisão, conquistando reconhecimento dentro e fora do país. Longe de se resumir a uma coleção de prêmios e personagens memoráveis, seu legado também está na defesa da cultura, na valorização da interpretação e na capacidade de permanecer em atividade e dialogar com diferentes gerações.
Nascida Arlette Pinheiro Esteves da Silva, em 16 de outubro de 1929, no bairro de Campinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro, ela começou a trabalhar ainda adolescente. Aos 15 anos, ingressou na Rádio Ministério da Educação e Saúde, atual Rádio MEC, onde atuou como locutora e radioatriz. Foi nesse período que adotou o nome artístico pelo qual se tornaria conhecida em todo o Brasil. A experiência no rádio abriu caminho para o teatro, cuja estreia profissional ocorreu em 1950, dando início a uma carreira que se desenvolveria ao longo das décadas seguintes.
Fernanda também teve papel pioneiro na televisão brasileira. Em 1951, foi contratada pela antiga TV Tupi, no Rio de Janeiro, e participou dos primeiros anos da teledramaturgia no país. Mais tarde, consolidou sua presença na TV Globo, onde integrou novelas, minisséries e especiais. Entre os trabalhos que marcaram sua passagem pela televisão estão “Guerra dos Sexos”, “Cambalacho”, “Belíssima”, “Doce de Mãe” e “Babilônia”, com personagens que demonstraram sua versatilidade entre a comédia e o drama.
No teatro, sua primeira grande paixão artística, a atriz construiu uma trajetória igualmente expressiva, interpretando textos de autores brasileiros e estrangeiros e colaborando com diferentes gerações de artistas. Ao lado do ator e diretor Fernando Torres, com quem foi casada por mais de cinco décadas, participou de uma história importante para as artes cênicas do país. Sua contribuição para o palco é reconhecida também pelo Teatro Fernanda Montenegro, nome adotado em abril de 2026 pela tradicional sala do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, em homenagem à artista que estreou profissionalmente nos palcos aos 21 anos.
No cinema, um dos momentos mais marcantes de sua carreira veio com “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles. Na produção, Fernanda interpreta Dora, uma ex-professora que escreve cartas para pessoas analfabetas e acaba acompanhando um menino em uma viagem pelo país em busca do pai. A atuação lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim, em 1998, e uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, em 1999. Ela se tornou a primeira brasileira indicada nessa categoria, levando o talento nacional a uma das principais vitrines da indústria cinematográfica mundial.
A lista de reconhecimentos inclui ainda o Emmy Internacional de melhor atriz por “Doce de Mãe”, em 2013, e o Prêmio Especial do Emmy Internacional, em 2019, em reconhecimento à sua contribuição para a televisão. Em 2021, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 17 e tornando-se a primeira atriz a integrar a instituição como membro efetivo. Em março deste ano, recebeu o Golden Globes Apogeu Award, distinção que reconhece personalidades com impacto duradouro no cinema e na televisão.
Uma artista que segue em movimento
Aos 97 anos, Fernanda Montenegro continua presente em produções recentes. Em março de 2026, chegou aos cinemas com “Velhos Bandidos”, comédia dirigida por seu filho, Claudio Torres. No filme, ela contracena com Ary Fontoura e interpreta uma personagem que se envolve em um plano de assalto a banco. A produção reforça a disposição da atriz para experimentar novos papéis e trabalhar com diferentes registros, sem limitar sua trajetória a personagens dramáticos. Na televisão, ela também integra o elenco de “Emergência 53”, série do Globoplay lançada em agosto de 2026 e ambientada no universo do atendimento de urgência.
Outra novidade é o documentário “Fernanda”, dirigido por Pedro Waddington, que estreou no Festival do Rio em 8 de outubro. A produção acompanha a atriz nos bastidores de trabalhos recentes, como “Vitória” e “Velhos Bandidos”, e combina imagens de arquivo, registros familiares e reflexões narradas pela própria artista. Em vez de seguir uma biografia convencional, o filme se aproxima de sua rotina criativa e de suas lembranças, abordando o envelhecimento, a memória e a relação com a profissão. O documentário tem previsão de chegada ao streaming Universal+ em dezembro.
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