Um estudo brasileiro publicado este ano na BMJ Global Health, uma das revistas científicas de medicina mais respeitadas do mundo, revelou que 10,8% e 19,9% das crianças e adolescentes do país apresentam ao menos um transtorno mental. O maior índice vem de pesquisas feitas em Porto Alegre e São Paulo.
O levantamento reuniu 734 estudos, se tornando o mapeamento mais amplo já feito sobre o tema no Brasil, país com cerca de 50 milhões de crianças e adolescentes.
Para a especialista em Neurodesenvolvimento Infantil e Neurociência da Aprendizagem e CEO da Clínica Estímulos, Tatiane Chagas, o dado precisa ser lido como um chamado à atenção.
“O percentual mostra que o sofrimento psíquico na infância é frequente e não pode ser tratado como ‘fase’ ou ‘frescura’. Quanto mais cedo é identificado, melhores são as chances de cuidado e de desenvolvimento saudável”, pontua.
O estudo mostra que o cenário vai além dos diagnósticos e inclui a exposição a situações que aumentam o risco para a saúde mental. Entre adolescentes de 13 a 17 anos, 65,2% já consumiram álcool na vida, 14,3% usaram drogas ilícitas e 17,1% experimentaram cigarro eletrônico.
Segundo os dados, 40% sofreram bullying no último mês, 21% foram vítimas de violência física doméstica no último ano e 14,6% relataram abuso sexual ao longo da vida. A taxa de mortes por arma de fogo entre 10 e 14 anos é de 10,04 por 100 mil, em sua maioria homicídios de meninos negros.
O estudo aponta ainda a discriminação racial como um destaque em relação depressão, autolesão e uso de substâncias. “Crianças e adolescentes que convivem com violência, preconceito ou negligência carregam isso no corpo e no comportamento. O cuidado com a saúde mental precisa considerar o contexto em que esse jovem vive, na família, na escola e na comunidade”, explica Tatiane.
Sinais de perigo
Para a especialistas, é importante que os pais e cuidadores estejam atento aos sinais dado por crianças e adolescentes.
Mudanças bruscas de comportamento como isolamento, queda no rendimento escolar, alterações de sono e apetite, irritabilidade intensa, falas de desesperança e marcas de autolesão são sinais que merecem atenção. O primeiro passo, segundo a especialista, é acolher.
“O primeiro movimento deve ser escutar sem julgar e sem minimizar. Depois, buscar ajuda profissional, seja em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), com um pediatra ou um psicólogo, e envolver a escola, que é um espaço-chave de observação. Em situação de risco à vida, não espere: procure um serviço de urgência”, orienta a profissional.