Dia de Cosme e Damião: por que a data é celebrada com caruru na Bahia?

Dia de Cosme e Damião: por que a data é celebrada com caruru na Bahia?

Redação Alô Alô Bahia

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Jonas Santana/Divulgação

Publicado em 27/09/2026 às 08:16

Se tem uma coisa que anuncia a chegada do fim de setembro na Bahia é o cheiro de azeite de dendê, o movimento nas cozinhas e a preparação de grandes panelas de caruru. Celebrado popularmente em 27 de setembro, o Dia de Cosme e Damião é marcado no estado por uma tradição que mistura fé, culinária e elementos das religiões de matriz africana.

Embora a Igreja Católica celebre oficialmente a memória dos santos em 26 de setembro, o dia seguinte se consolidou, especialmente na Bahia, como uma das principais datas para homenageá-los. A festa ganhou características próprias ao longo dos séculos e passou a ser associada ao caruru, aos doces e à participação das crianças.

Quem foram Cosme e Damião?

Cosme e Damião eram irmãos gêmeos e, segundo a tradição cristã, viveram entre os séculos III e IV. Os dois teriam exercido a medicina e ficaram conhecidos por tratar pessoas sem cobrar pelos serviços. Durante as perseguições aos cristãos no Império Romano, foram martirizados por sua fé.

Por sua história ligada à cura e ao cuidado, tornaram-se santos associados à medicina e são tradicionalmente considerados padroeiros de médicos, cirurgiões e farmacêuticos.

No Brasil, a devoção aos irmãos ganhou diferentes expressões regionais. Na Bahia, ela se encontrou com tradições africanas e afro-brasileiras, dando origem a uma das manifestações religiosas e culturais mais conhecidas do estado.

E o que os santos têm a ver com o caruru?

É justamente aí que entra uma das características mais marcantes da celebração baiana. O caruru oferecido em homenagem a Cosme e Damião está ligado também aos Ibejis, divindades associadas aos gêmeos e à infância nas religiões de matriz africana.

Ao longo da formação cultural da Bahia, Cosme e Damião foram aproximados dos Ibejis dentro do processo de sincretismo religioso. As duas referências, embora tenham origens e significados próprios, passaram a compartilhar algumas formas de devoção popular.

Por isso, em muitas casas e famílias baianas, a homenagem aos santos é acompanhada por um grande banquete. O prato que dá nome à celebração é preparado tradicionalmente com quiabo, azeite de dendê, camarão e temperos, mas o chamado “caruru” pode representar, na prática, uma refeição muito mais ampla.

A mesa pode reunir vatapá, xinxim de galinha, feijão-fradinho, acarajé, abará, arroz e outros pratos da culinária afro-baiana, além de doces distribuídos principalmente para as crianças.

O significado do caruru

Mais do que uma refeição, o caruru de Cosme e Damião representa, para muitas famílias, um momento de fé, agradecimento, promessa e partilha. Há quem prepare o prato todos os anos por tradição familiar; há também quem ofereça o caruru como forma de agradecer por uma graça alcançada ou pelo cumprimento de uma promessa. Depois de preparado, o banquete é compartilhado com parentes, amigos, vizinhos e crianças.

A tradição é tão forte que o termo “caruru” passou a ser usado, em determinados contextos, para designar não apenas o prato de quiabo, mas o próprio conjunto da celebração e da comida oferecida em homenagem aos santos e aos Ibejis.

Por que sete crianças?

Um dos costumes mais conhecidos é o chamado caruru dos sete meninos. Em determinadas celebrações, sete crianças são escolhidas para receber o primeiro prato da festa. Tradicionalmente, elas se sentam juntas e comem o caruru com as mãos.

O número sete aparece como um elemento recorrente nessa tradição, embora os rituais e a forma de realização da festa possam variar de acordo com a família, a casa religiosa ou a comunidade.

A presença das crianças não é por acaso, já que a celebração está diretamente relacionada à infância e à simbologia dos gêmeos e dos Ibejis, reforçando a ideia de alegria, proteção, fartura e renovação.

Uma tradição que virou patrimônio cultural da Bahia

O caruru de Cosme e Damião ultrapassou o espaço das manifestações estritamente religiosas e se tornou parte da identidade cultural baiana. A tradição está presente tanto em terreiros de religiões de matriz africana quanto em casas de famílias católicas e em celebrações populares que incorporaram diferentes referências religiosas.

Na Bahia, setembro é, portanto, também um mês de encontros em torno da mesa. Entre panelas de caruru, pratos de vatapá, doces e crianças reunidas, a celebração mantém viva uma tradição que combina referências cristãs, heranças africanas e a própria maneira baiana de celebrar a fé, com comida, música, comunidade e partilha.

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