Ozempic, Wegovy e Mounjaro: Anvisa investiga 13 casos de perda de visão relacionada a canetas emagrecedoras

Ozempic, Wegovy e Mounjaro: Anvisa investiga 13 casos de perda de visão relacionada a canetas emagrecedoras

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Redação Alô Alô Bahia

Reprodução/ICTQ

Publicado em 27/09/2026 às 09:39

A Anvisa investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noia) em pacientes que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, usados no tratamento do diabetes e da obesidade. A doença é uma lesão rara do nervo óptico que pode provocar perda súbita e permanente da visão. Os casos envolvem usuários de Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro, mas a agência ressalta que a presença simultânea do medicamento e da doença em uma notificação não comprova relação de causa e efeito.

A Noia ocorre quando há redução do fluxo sanguíneo para a parte anterior do nervo óptico. O processo é semelhante a um infarto, quando os pequenos vasos que irrigam a região são comprometidos, células nervosas deixam de receber oxigênio e nutrientes e a visão de um dos olhos pode piorar repentinamente, geralmente sem dor e, em muitos casos, sem recuperação completa.

Segundo levantamento feito pelo g1, as 13 notificações associadas às canetas correspondem a 12 casos relacionados à semaglutida e um à tirzepatida. A distribuição citada no sistema da Anvisa é de cinco notificações envolvendo Ozempic, três Wegovy, duas Wegovy FlexTouch, duas Rybelsus e uma Mounjaro. Desde 2018, o painel de farmacovigilância da agência contabiliza 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica, incluindo casos associados a outras classes de medicamentos.

A investigação ganhou atenção após a divulgação de processos movidos nos Estados Unidos contra a Novo Nordisk por pacientes que alegam ter desenvolvido perda de visão associada à Noia. Paralelamente, estudos científicos vêm avaliando uma possível associação entre a semaglutida e a doença, mas os resultados ainda não são suficientes para estabelecer causalidade.

Um estudo publicado na JAMA Ophthalmology encontrou uma possível associação entre semaglutida e Noia. Outra pesquisa, que analisou dados de mais de 1,5 milhão de pacientes com diabetes, identificou 35 casos de Noia entre os usuários de semaglutida ou tirzepatida, contra 19 no grupo de comparação. Os autores, porém, destacam que a doença é rara e que os resultados de estudos observacionais não estabelecem, por si só, que os medicamentos sejam responsáveis pelos casos.

As evidências disponíveis permanecem divergentes. Um estudo nacional realizado com veteranos americanos com diabetes tipo 2 encontrou risco aproximadamente duas vezes maior de Noia entre novos usuários de semaglutida em comparação com usuários de outra classe de medicamentos, embora o risco absoluto tenha permanecido baixo. Já análises de outros conjuntos de dados não encontraram aumento consistente do risco, e pesquisadores destacam limitações relacionadas ao desenho dos estudos, às doenças preexistentes e à própria raridade da condição.

No Brasil, a Noia já aparece desde junho de 2025 na bula dos medicamentos à base de semaglutida como uma reação adversa muito rara. Entre os usuários das canetas, a avaliação dos casos é dificultada principalmente pela presença de condições que também aumentam o risco de problemas vasculares e oculares, como diabetes, hipertensão e obesidade.

Além das 13 notificações de Noia, o painel da Anvisa reúne 74 registros de outras complicações visuais em usuários desses medicamentos. Entre elas estão 37 relatos de visão turva, 29 de comprometimento visual, além de redução da acuidade visual, perda da visão central, perda súbita da visão e alterações no campo visual. Como uma mesma notificação pode apresentar mais de um sintoma, esses números não correspondem necessariamente ao número de pacientes.

Para especialistas ouvidos pelo g1, os dados disponíveis não justificam a interrupção do tratamento para pessoas que têm indicação médica. A recomendação, segundo o levantamento, é manter acompanhamento profissional e atenção a alterações na visão. Pacientes que já tiveram Noia ou que apresentam perda súbita ou recente da visão devem procurar avaliação médica, enquanto pessoas com diabetes em tratamento devem realizar acompanhamento oftalmológico periódico.

Em nota, a Novo Nordisk afirma que seus ensaios clínicos, com mais de 83 mil pacientes-ano de observação no braço da semaglutida, identificaram um número muito baixo de casos confirmados de Noia e não demonstraram aumento da incidência da doença entre os participantes que receberam semaglutida. A empresa afirma ainda que, considerando o conjunto das evidências disponíveis, mantém a avaliação de que o balanço entre benefícios e riscos do medicamento permanece favorável.

A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informou que monitora e avalia continuamente os dados de segurança de seus medicamentos e mantém discussões com autoridades regulatórias sobre possíveis questões de segurança, incluindo informações relacionadas a problemas oftalmológicos. A empresa orienta que pacientes que apresentem efeitos colaterais conversem com seu médico ou outro profissional de saúde.

Compartilhe

Alô Alô Bahia Newsletter

Inscreva-se grátis para receber as novidades e informações do Alô Alô Bahia