Um novo site dedicado à obra do antropólogo, escritor, médico e professor universitário Thales de Azevedo disponibiliza ao público 1.697 cartas de sua autoria, enviadas a instituições culturais, colegas de trabalho e amigos intelectuais. O acervo reúne documentos que ajudam a compreender a trajetória do intelectual baiano e os contextos em que algumas de suas principais pesquisas e obras foram desenvolvidas.
Acesse o site Missivas de Thales de Azevedo
A correspondência inclui cartas destinadas a nomes importantes das Ciências Sociais e da literatura brasileira, entre eles Gilberto Freyre, Melville Herskovits, Margaret Mead, Antônio Candido, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Roger Bastide, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel Bandeira e Mário de Andrade.
Segundo Paulo Ormindo de Azevedo, filho de Thales, professor aposentado da UFBA e responsável pela concepção e coordenação do projeto, a correspondência é uma fonte importante para compreender a evolução intelectual do antropólogo, suas relações com outros pesquisadores e os contextos históricos de produção de seus trabalhos.
Documentos revelam bastidores de pesquisas na Bahia
As primeiras correspondências de Thales de Azevedo datam do final da década de 1920. A partir de 1942, quando passou a atuar mais diretamente nas Ciências Sociais, as cartas passaram a incluir nomes ligados à Antropologia e à Universidade de Columbia.
Em 1951, por indicação de Anísio Teixeira, Thales foi escolhido para coordenar, ao lado do antropólogo norte-americano Charles Wagley, o Programa de Pesquisas Sociais Estado da Bahia-Columbia University. A iniciativa resultou em pesquisas realizadas em diferentes regiões baianas, abordando temas como relações raciais, vida rural, religiosidade e economia do cacau.
As correspondências também ajudam a esclarecer a relação de Thales com pesquisadores estrangeiros que desenvolveram estudos na Bahia, como Marvin Harris, Harry William Hutchinson, Benjamin Zimmermann, Antony Leeds e Rollie Poppino, além de pesquisadores que posteriormente realizaram trabalhos sobre coronelismo, religiosidade popular, cultura do sisal e outras questões sociais no estado.
Relação com intelectuais brasileiros e estrangeiros
O acervo registra ainda a interlocução de Thales com importantes pesquisadores da Antropologia Cultural, como Melville Herskovits e Margaret Mead, além dos brasilianistas Thomas Skidmore e Shepard Forman e de pesquisadores europeus, entre eles C. R. Boxer, Adriano Moreira, Jorge Dias e Orlando Ribeiro.
A correspondência também ultrapassa o ambiente acadêmico. Thales manteve contato com escritores e outros intelectuais, incluindo nomes da literatura brasileira. Parte das cartas está relacionada à sua atuação como escritor, membro da Academia de Letras da Bahia e integrante de instituições culturais.
O site organiza as correspondências em dez temas: Antropologia e Ciências Sociais; Educação e Cultura; Família e Amigos; História e Protagonistas; Instituições e Eventos; Medicina e Saúde; Produção Editorial; Referências; Relações Financeiras; e Religião. As cartas podem ser pesquisadas por data, tema e destinatário.
Acervo inclui pinturas e outros materiais
Além das missivas, a plataforma reúne materiais que já estavam disponíveis em uma versão anterior do site sobre Thales de Azevedo, como artigos de jornal, fotografias, bibliografia e reproduções de pinturas produzidas pelo próprio antropólogo. O projeto também prevê a inclusão de novos conteúdos, entre eles traduções para o português de teses defendidas no exterior que ainda não foram publicadas no idioma.
As cartas foram indexadas e escaneadas com participação da professora de Arquivologia Ivana Severino e do mestrando em Arquivologia Niury Magarefe, do Instituto de Ciência da Informação da UFBA. Thales de Azevedo Filho, responsável pela elaboração do primeiro site, também participou da atualização do projeto.
Thales de Azevedo e a UFBA
Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1927, Thales de Azevedo atuou como médico antes de ampliar sua trajetória para as Ciências Sociais. A partir de 1942, passou a ensinar Antropologia na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Bahia, atual Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da UFBA, onde permaneceu até 1969.
Considerado um dos pioneiros da Antropologia Social no Brasil, publicou estudos sobre relações raciais, catolicismo popular, alimentação, medicina, história e cultura. Entre seus trabalhos está As elites de cor: um estudo de ascensão social, publicado originalmente na França em 1953 e lançado no Brasil em 1955.
O novo acervo foi lançado em julho deste ano, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. A apresentação nacional ocorreu no fim do mesmo mês, durante a 35ª Reunião Brasileira de Antropologia, em Goiânia.