Carlinhos Brown: “O Carnaval não pode mais ser visto pelo olhar do folclore”

Carlinhos Brown: “O Carnaval não pode mais ser visto pelo olhar do folclore”

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Peu Lins direto de São Paulo

Leca Novo / Divulgação

Publicado em 22/09/2026 às 18:33

Carlinhos Brown lançou oficialmente, nesta terça-feira (22), em São Paulo, o Camarote Brown, que terá sua 4ª edição no Carnaval de Salvador, em 2027. Ao lado dos sócios Lícia Fábio e Zum Brasil, o cantor apresentou ainda Nizan Guanaes como líder criativo do projeto. O publicitário ficará à frente da relação com as marcas e tem como missão “dar uma cara nacional a um camarote profundamente baiano”. Em entrevista ao Alô Alô Bahia, Brown falou sobre o novo projeto, a relação entre iniciativa privada e cultura popular e o papel que pretende desempenhar no Carnaval de Salvador, além de antecipar o que espera do verão de 2027, um dos mais curtos dos últimos anos.

A parceria materializada no Camarote Brown reforça a dimensão de negócios do Carnaval soteropolitano. Ao mesmo tempo em que cria um espaço exclusivo para convidados e networking, Brown mantém suas iniciativas populares em busca de um equilíbrio entre o que acontece nos espaços privados e aquilo que faz a rua pulsar.
Em celebração de convivência como é o Carnaval, vai haver um interesse comercial muito grande. Um dos desejos do Camarote Andante era que as marcas organizassem serviços na rua para o cliente dele e o cliente do dia a dia, o povo. Mas a gente amadurece isso a cada ano. Cabe a nós, que estamos liderando, fazer essa aproximação social sem exclusões, dando o melhor da gente”, comenta.

A lógica, para Brown, é também uma forma de ampliar a experiência que já desenvolve no Candyall Guetho Square.
O Carnaval tem um fator satisfação que é dar continuidade à criatividade. Nesse caso, pra mim, é novo o fato de lidar com o camarote de receptivo, porque lá sempre fazemos edições para convidados. Por isso ele é essa intenção de fazer uma extensão do Candyall Guetho Square na rua”, explica.

Carlinhos enxerga seu camarote como uma tese de carnavalesco que antes se preocupou em trabalhar na organização da folia da rua. Na visão dele, quando se fala em Carnaval de Salvador, é necessário se atentar para a dimensão real de captação econômica da festa. “Tem que ter um olhar de negócio pra essas coisas porque elas trazem renda pra cidade. O que a Bahia tá produzindo além de boas pessoas, de grandes encontros, etc.? O Carnaval não pode mais ser visto pelo olhar do folclore. O que a gente tá produzindo em torno de fortalecer algo que não pode mais ser visto pelo olhar do folclore? ”, questiona o cacique.

Por isso o Camarote Brown tá de olho no artista plástico, no músico, no DJ de vanguarda, no percusionista que está fazendo algo diferente. Ele está de olho nas rezadeiras, nas ganhadeiras, no artista culinário e todo mundo que quer se manifestar de alguma forma e que constituem as fortalezas da cidade”, afirma CB.

Três perguntas para Carlinhos Brown:

Você costuma falar da Bahia não apenas como um lugar que produz música, mas como um território capaz de criar transformações sociais. O que significa perceber que seu trabalho ultrapassou a música e chegou a áreas como educação, habitação e desenvolvimento social?

Essa coisa de eu também olhar pro umbigo me edificando e moldando à minha cultura local termina distanciando do mundo, mas quem são esses baianos que confiam no que nós estamos fazendo lá na área social, na área de educação, de habitação, musical, estética? E confiam a título de dizer ‘eu estou presente nisso porque isso dialoga com o mundo, dialoga com o que o mundo está buscando no momento’. Na Bahia podem até tentar, mas o preconceito lá não pega porque a gente não deixa. Então quando eu chego aqui em São Paulo depois de 40 anos, eu não chego pra dizer sobre uma música de sucesso. Eu chego pra dizer que todo o trabalho que nós construímos juntos com apoio de Viviane Sena, da Patoral da Criança e outras entidades, nós conseguimos um fator mais importante que um hit, que é uma comunidade com índice zero de violência e isso representa tudo em nossas vidas.

Você falou sobre a importância de cada pessoa assumir a responsabilidade por aquilo que lidera. Buscando o equilíbrio entre os ambientes privados e sem descaracterizar o que acontece na rua, como essa divisão de responsabilidades poderia melhorar o Carnaval de Salvador, especialmente quando falamos das manifestações culturais populares?


Eu acho que ainda falta uma conversa de quem liderar o que. Ao invés de liderar o todo, de que cada pessoa tome responsabilidade por algo. Às vezes parece que tem sempre alguém querendo liderar o todo e acaba não tendo braço e as questões populares às vezes passam por problemas. Porque essas questões também terminam sendo as menos favorecidas em alguns quesitos e são reclamações eternas. Não tem políticas públicas ou olhar voltado a isso. A história que acontece com os blocos afro na Bahia, por exemplo, é um recall de erros que envergonham, mas que foram normalizados. Hoje eu vi os números de apoio a essas entidades pro ano que vem e achei uma vergonha. Um número que você “malalmente” apoia um bloco e aquilo saiu como se fosse uma grande coisa.

Então o que esperar do Carnaval de 2027? O que você acha que teremos a mostrar para o Brasil dessa vez?

É um Carnaval, talvez um dos mais bem preparados, porque todo mundo ficou com medo dos reflexos do que aconteceu naquele sábado de 2024 ou o domingo de 2026 [dias em que o circuito Barra-Ondina sofreu com superlotação e problemas técnicos]. Acredito que será um Carnaval também de inovações, que vai mostrar novas músicas e que afirma aquela Bahia que explodiu pro mundo com o samba-reggae, mas que antes dela tem a Bahia do próprio reggae. A gente celebrou tudo nos 40 anos do Axé Music, menos o reggae. Celebramos até o samba e isso cresce quando todo mundo retoma o olhar pra o nosso grande mestre Edson Gomes, ou para o que nós éramos na Acordes Verdes, porque nossas músicas explodiram antes. As músicas de reggae popular explodiram antes ali na linguagem minha, de Luiz Caldas como “quero ver toda a massa cantando reggae sem se importar com a força que me carregue”. Por quê? Porque a polícia cortava os nossos cabelos como uma repressão de que aqueles caras com cabelo rastafári estavam cometendo ilícitos. Então a gente clamava o reggae como um libertador dessas questões.

Acredito que o reggae vai ter muita força neste Carnaval. Claro, as músicas carnavalescas e os clássicos não deverão jamais sair dos repertórios, mas elas existem, elas estão preparadas e temas novos estão vindo, pessoas de extrema consciência estão vindo. O pagodão é um sucesso e eu digo que a bacurinha é maior ainda porque ela está em todos os pagodões e ela virou uma sonoridade disso. Então são muitas vitórias, não apenas pessoais, mas de um coletivo que celebra o Carnaval da Bahia através do Axé Music.

Carlinhos Brown lança camarote para Carnaval 2027 com Nizan Guanaes na direção criativa

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