A trajetória de Irmã Dulce, eternizada como “O Anjo Bom da Bahia”, alcançou seu ápice de reconhecimento no dia 13 de agosto de 2019, quando foi oficialmente canonizada em uma cerimônia presidida pelo Papa Francisco, no Vaticano. A celebração consolidou a religiosa baiana como a primeira santa nascida no Brasil, passando a ser reverenciada como Santa Dulce dos Pobres.
O processo de canonização de Irmã Dulce foi marcado por sua rapidez: ocorreu apenas 27 anos após o seu falecimento, em 1992. Trata-se da terceira mais veloz da história da Igreja Católica, ficando atrás apenas do Papa João Paulo II (nove anos) e de Madre Teresa de Calcutá (19 anos).
A elevação aos altares exigiu o rigoroso reconhecimento de dois milagres oficiais pelo Vaticano. O processo é atestado somente após passar por três etapas criteriosas de avaliação: peritos médicos, teólogos e a aprovação unânime do colégio de cardeais.
O milagre precisa apresentar quatro pilares fundamentais: ser instantâneo (logo após o pedido), perfeito (atendimento completo), duradouro e preternatural (sem explicação da ciência médica). Conheça os casos oficiais e os relatos populares de fé que cercam o legado da religiosa.
O primeiro milagre: a cura da hemorragia em Sergipe
O primeiro caso reconhecido pelo Vaticano e que garantiu a beatificação de Irmã Dulce ocorreu no ano de 2001, em Itabaiana, Sergipe. A servidora pública Claudia Cristina dos Santos, natural da cidade de Malhador, sofreu uma grave hemorragia incontrolável logo após dar à luz seu segundo filho.
O sangramento persistiu por mais de 15 horas, e Claudia chegou a ser submetida a três cirurgias, incluindo a remoção do útero, sem sucesso. A situação era tão crítica que o padre José Almí foi chamado ao hospital para realizar a unção dos enfermos. Em vez disso, munido de um “santinho” da freira, ele conduziu familiares e amigos em uma oração pedindo a intercessão da religiosa. Subitamente, o sangramento cessou.
“Se hoje estou viva, é graças a Deus e à intercessão dela”, declarou Claudia à época da oficialização da graça.
O segundo milagre: a volta da visão do maestro Maurício
O milagre definitivo para a canonização teve como protagonista o maestro baiano José Maurício Moreira, de 50 anos, radicado no Recife. Após ser acometido por um glaucoma severo aos 23 anos, o músico perdeu gradativamente a visão, até ficar completamente cego no ano de 2000.
Foram 14 anos vivendo na escuridão, período em que chegou a conhecer e se casar com a esposa Marise, sem nunca ter visto seu rosto. A reviravolta aconteceu na madrugada de 11 de dezembro de 2014, quando Maurício contraiu uma forte conjuntivite viral que lhe causava dores excruciantes.
Em desespero pelo alívio, ele pegou uma imagem de Irmã Dulce que pertencia à sua mãe, colocou sobre os olhos e clamou pela ajuda da freira, pedindo apenas o fim da dor, pois sabia que voltar a ver era medicamente impossível.
Na manhã seguinte, ao acordar, o maestro notou que sua visão começava a clarear, como uma “nuvem se dissipando”.
O espanto maior veio do campo científico: o médico Sandro Barral, um dos peritos investigadores da causa, confirmou que os exames de Maurício ainda mostram seus nervos óticos completamente destruídos, tornando a visão impossível sob a ótica da medicina, atestando o caráter inexplicável da recuperação.
Um arquivo com milhares de graças ‘extra-oficiais’
Muito antes dos trâmites no Vaticano, a crença nos poderes intercessores da freira já tomava conta da população. O Memorial de Irmã Dulce, mantido pelas Obras Sociais Irmã Dulce (OSID) em Salvador, abriga mais de 13 mil relatos de graças alcançadas. São cartas, laudos e testemunhos de todo o Brasil e de países como Itália, Espanha e Filipinas.
Uma reportagem da BBC Brasil, publicada em 2019, relatou casos impactantes como o de Milena Vasconcelos, moradora de Irecê (BA), que em 2007 se recuperou de uma hemorragia fatal pós-parto após sua mãe colocar um postal de Irmã Dulce sob seu travesseiro.
Há também a história do cearense Mauro Feitosa Filho, que aos 13 anos foi diagnosticado com um tumor maligno inoperável no cérebro. Após dez dias de oração pedindo a intercessão da religiosa baiana, a cirurgia foi realizada e o tumor, contra as previsões, estava encapsulado e foi facilmente removido.
E até mesmo relatos extremos, como o do sergipano Danilo Guimarães, que após ter perna amputada e entrar em coma, se recuperou instantes depois de a família rezar para a freira baiana, mesmo com o jazigo do cemitério já comprado.
Segundo a museóloga Carla Silva, responsável pelo arquivo da OSID, a fé popular move o memorial. “Elas se abrem totalmente, porque realmente acreditam que foram agraciadas por um milagre. Eu me emociono todas as vezes”, contou, em depoimento à BBC Brasil.