Inverno na Bahia: El Niño intensifica calor e amplia contraste entre litoral chuvoso e interior seco

Inverno na Bahia: El Niño intensifica calor e amplia contraste entre litoral chuvoso e interior seco

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Coopercuc

Publicado em 22/06/2026 às 10:46 / Leia em 5 minutos

O inverno começou oficialmente na Bahia neste domingo (21), às 5h24, e deve ser marcado pela influência do El Niño, fenômeno que atua no Oceano Pacífico e tende a favorecer temperaturas acima da média histórica, especialmente na segunda metade da estação. Segundo especialistas do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), os efeitos vão além do aumento do calor e impactam diretamente os diferentes biomas presentes no estado, como Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Restinga e Manguezal.

De acordo com o coordenador de Estudos de Clima e Projetos Especiais do Inema, Aldirio Almeida, o inverno baiano é fortemente influenciado pelos sistemas de alta pressão subtropical do Atlântico Sul, responsáveis por criar condições climáticas bastante distintas entre o litoral e o interior. Enquanto o semiárido enfrenta um período de estiagem intensa, o litoral, especialmente Salvador e o Recôncavo, registra as chuvas mais significativas do ano.

“Há uma grande diferença entre o que acontece no semiárido e no litoral. Enquanto o semiárido passa por uma seca muito forte, o litoral, especialmente em Salvador e no Recôncavo, recebe as maiores chuvas do ano. Isso acontece porque o sistema de alta pressão subtropical do Atlântico Sul e os ventos de sudeste trabalham juntos. Esses ventos trazem umidade para a costa, mas ao mesmo tempo, fazem com que a seca no interior seja ainda mais forte”, explica o coordenador.

Apesar da tendência de aquecimento provocada pelo El Niño, os primeiros meses da estação ainda devem registrar temperaturas baixas em algumas regiões. Na Chapada Diamantina e no Sudoeste baiano, os termômetros podem marcar menos de 10°C em áreas de maior altitude. No Oeste, a característica predominante será a grande amplitude térmica, com madrugadas frias e tardes quentes. Neblinas e nevoeiros também são esperados em regiões serranas e vales.

“A atuação do El Niño neste ano tende a acentuar ainda mais esse contraste, com temperaturas mais altas que a média histórica e impacto direto sobre a intensidade da estiagem no semiárido. Ainda assim, esperamos a ocorrência de temperaturas baixas nestes primeiros dias da estação”, completa Aldirio.

Na Caatinga, bioma predominante na Bahia, o inverno representa o auge da estiagem. A vegetação responde à escassez de água por meio da deciduidade, processo em que árvores e arbustos perdem as folhas para reduzir a transpiração, formando a paisagem esbranquiçada que inspirou o nome do bioma. Espécies como catingueira, juazeiro, aroeira-do-sertão, mandacaru e facheiro apresentam diferentes estratégias de adaptação à seca.

“A perda das folhas pelas espécies de árvores e arbustos não é um sinal de degradação, mas uma estratégia evolutiva sofisticada para reduzir a perda de água em um ambiente de estresse hídrico extremo. As cactáceas, por exemplo, funcionam como reservatórios vivos, sustentando parte da fauna durante esses meses mais secos”, observa a coordenadora de Gestão da Biodiversidade do Inema, Mara Angelica dos Santos.

No Cerrado, presente principalmente no Oeste e Sudoeste baianos, a estação também coincide com o período seco, marcado pela baixa umidade do ar e maior suscetibilidade a incêndios. Enquanto plantas rasteiras e pequenos arbustos entram em uma espécie de dormência para economizar água, espécies como os ipês-amarelos e roxos florescem justamente durante a seca, favorecendo a atração de polinizadores.

“A floração dos ipês durante a seca do Cerrado é um dos fenômenos mais bonitos e também mais estratégicos da nossa flora. Sem a competição visual das folhas, a árvore maximiza a atração de polinizadores justamente no período em que os recursos são mais escassos”, destaca Mara Angelica.

No litoral, o cenário é oposto. Os remanescentes de Mata Atlântica, assim como as áreas de Restinga e Manguezal, entram no período mais úmido do ano. A maior disponibilidade de água estimula o crescimento da vegetação, a frutificação e a renovação foliar. Nos manguezais, o aumento da vazão dos rios amplia o aporte de nutrientes e favorece a produtividade biológica. Já nas restingas, espécies como pitanga e araçá encontram condições mais favoráveis para a frutificação.

Em Salvador, embora os maiores volumes médios de chuva costumem ocorrer entre abril e maio, o inverno mantém elevados índices de umidade e precipitação acima dos registrados em grande parte da primavera e do verão. Essa condição beneficia tanto a vegetação urbana quanto os fragmentos remanescentes de Mata Atlântica, favorecendo a rebrota de espécies, a germinação de sementes e o desenvolvimento de grupos vegetais dependentes da água.

“Mesmo em fragmentos urbanos, como o Parque de Pituaçu, por exemplo, é possível observar os efeitos do inverno chuvoso sobre a vegetação remanescente de Mata Atlântica. A umidade favorece a rebrota, a germinação de sementes e a presença de grupos vegetais mais sensíveis, como briófitas e pteridófitas, que dependem de água para se reproduzir”, observa Mara Angelica.

Segundo o Inema, o inverno baiano evidencia a diversidade climática do estado. Enquanto Caatinga e Cerrado enfrentam o período de maior estresse hídrico, o litoral mantém condições favoráveis à produtividade biológica. Compreender essas diferenças é fundamental para ações de conservação, manejo ambiental e monitoramento da biodiversidade ao longo do ano.

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