Em um cenário em que muitas narrativas LGBTQIA+ no cinema ainda são construídas a partir do sofrimento, da rejeição ou da tragédia, “Corações Jovens” (Young Hearts), do diretor e roteirista Anthony Schatteman, escolhe um caminho diferente. E, justamente por isso, se destaca.
O longa belga acompanha Elias, um garoto de 13 anos que vê sua rotina mudar com a chegada de Alexander, o novo vizinho. À medida que a amizade entre os dois se fortalece, sentimentos inéditos começam a surgir, obrigando o protagonista a lidar com dúvidas, inseguranças e o medo do julgamento alheio. É uma história simples em sua estrutura, mas profundamente honesta na forma como retrata as descobertas emocionais da adolescência.
Indicado ao Urso de Cristal no Festival Internacional de Cinema de Berlim e vencedor do Cannes Écrans Juniors em 2024, o filme confirma o reconhecimento que recebeu no circuito de festivais ao apresentar uma narrativa delicada, sensível e universal. Afinal, embora trate de um romance entre dois meninos, sua essência fala sobre algo que todos conhecem, que é a experiência do primeiro amor.

Grande parte do mérito está na condução do diretor e roteirista Anthony Schatteman, que evita excessos dramáticos e aposta na naturalidade dos sentimentos. O resultado é um filme acolhedor, capaz de emocionar sem manipular o espectador. A atuação mais do que especial do jovem Lou Goossens contribui para essa autenticidade, transmitindo a vulnerabilidade e a intensidade características dessa fase da vida.
Algumas críticas internacionais apontaram justamente a suavidade da trama como uma limitação, argumentando que o filme evita conflitos mais profundos ou situações de maior tensão. Respeito essa leitura, mas não concordo com ela. Existe uma expectativa recorrente de que histórias LGBTQIA+ precisem necessariamente passar pela dor extrema para serem consideradas relevantes ou realistas. Mas a vida não é igual para todo mundo. Nem toda pessoa LGBTQIA+ cresce em ambientes hostis, assim como nem toda trajetória é marcada por traumas ou rejeições.
Ver uma história que retrata acolhimento, afeto e descoberta sem transformar seus personagens em vítimas permanentes não torna o filme menos verdadeiro. Pelo contrário, amplia a representação dessas vivências no cinema. Há espaço para narrativas duras e necessárias, mas também há espaço para histórias que celebrem a possibilidade de amar e ser amado sem que o sofrimento seja o elemento central.
“Corações Jovens” emociona justamente por compreender isso. Seu olhar é gentil, otimista e cheio de humanidade. Em vez de buscar grandes reviravoltas, encontra força nos pequenos gestos, nos silêncios e nas emoções que acompanham qualquer primeiro amor.
O filme está disponível com exclusividade no Filmelier+ e é uma ótima pedida para quem procura uma história sensível, bem interpretada e capaz de lembrar que crescer, descobrir quem somos e nos apaixonar pela primeira vez já é, por si só, uma aventura intensa o bastante.
Serviço:
Filme: Corações Jovens (Young Hearts)
Disponível no Filmelier+
Direção: Anthony Schatteman
Elenco: Lou Goossens, Marius De Saeger e Geert Van Rampelberg
Gênero: Drama, Família, Romance
Duração: 99 minutos
Distribuição: Polar Bear, Family Affair Films e Kwassa Films