Quem é o cangaceiro que surgiu antes de Lampião e é “rejeitado” em Feira de Santana?

Quem é o cangaceiro que surgiu antes de Lampião e é “rejeitado” em Feira de Santana?

Redação Alô Alô Bahia

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Com informações de Correio

Reprodução

Publicado em 26/04/2026 às 15:48 / Leia em 13 minutos

Segundo o IBGE, existem 1.479 pessoas com o sobrenome Evangelista em Feira de Santana. Certamente a maioria não sabe, mas este segundo nome que carrega na Carteira de Identidade pode ligá-lo a um dos personagens históricos mais notórios da cidade, se não o maior, talvez pau a pau com (Maria) Quitéria. Pode ser que você seja, caro leitor Evangelista, parente do também feirense Lucas da Feira, apontado um dos primeiros cangaceiros da história, o primeiro baiano e um dos nomes mais temidos, respeitados e falados entre os anos de 1828 e 1849, apesar de esquecido pela poeira do tempo após sua morte. Dizem até que Dom Pedro queria conhecê-lo pessoalmente, algo que nunca aconteceu. Afinal, por que este sobrenome tão famoso, oriundo da Princesinha do Sertão, não está nos livros sobre o cangaço? Dois termos podem explicar o questionamento: apagamento histórico e racismo.

Na trajetória do cangaço, há uma linha tênue entre o protagonismo e o pioneirismo, principalmente quando comparamos Lampião e Lucas da Feira. A fama é toda de Virgulino Ferreira, ninguém duvida disso e nem é doido de questionar. Contudo, quando o mais notório cangaceiro nasceu, em Pernambuco, possivelmente no dia 7 de julho de 1897, a execução de Lucas da Feira, em praça pública, já havia completado 48 anos. E o cangaço já havia nascido, com nomes que também reivindicam a alcunha de primórdio, como o temido Cabeleira em Pernambuco, que viveu antes de Lucas, inclusive. Contudo, o baiano leva uma peculiaridade que o difere dos demais: ele era um escravizado que fugiu para ganhar sua fama.

Lucas da Feira viveu quase 20 anos como cangaceiro, considerando o termo para os moldes da época. Quase o mesmo tempo de Lampião, inclusive. Teve um bando, tinha coiteiros, promoveu alianças com ricos e pobres, foi perseguido pela justiça e forças de segurança, temido por muitos e respeitado por outros tantos. Um prato cheio para quem gosta de rotular um fenômeno tão complexo entre o cesto dos mocinhos e o dos bandidos. Melhor parar por aqui. Lucas Evangelista chegou a ter fama de Robin Hood do sertão, mas o foco aqui é outro: por que o tempo apagou a memória desse personagem baiano icônico e primordial, inclusive do rol dos bandoleiros mais famosos do país?

Lucas tinha sua maneira peculiar de sobrevivência e, assim como Virgulino Ferreira, terminou com a cabeça separada do corpo. Muitas semelhanças que contribuem para que o baiano seja, sim, um dos precursores do cangaço na história, ainda no período escravista e colonial.

Existem duas datas possíveis para o nascimento de Lucas Evangelista, em 1804 ou 1807. Por se tratar de um patrimônio dos brancos, ou melhor dizendo, mercadoria, sua data segue um mistério pela carência de registro. O certo é que ele nasceu na fazenda Saco de Limão, situada nas imediações da freguesia de São José das Itapororocas, na época pertencente à Cachoeira, mas cabe salientar que a cidade banhada pelo Rio Paraguaçu tinha um território vasto, que cortava todo o Recôncavo e invadia o sertão. Hoje o local pertence à Feira de Santana, o que causa confusão sobre a origem de Evangelista. Mas era feirense, viu?

“Originalmente, o escravo rebelde Lucas da Feira pertenceu a Antônia Pereira do Lago. Com o falecimento de Antônia, por volta da década de 1820, parte das suas posses foi transmitida ao seu sobrinho e afilhado, o padre José Alves Franco, uma vez que ela nunca se casou. Após a morte do clérigo, a posse de Lucas passou para o pai do padre, o alferes José Alves Franco”, conta o pesquisador e roteirista Marcos Franco, um dos criadores da obra Sant’Anna da Feira, Terra de Lucas, que conta em quadrinhos a trajetória do feirense, uma obra premiada, inclusive.

O sobrenome de Marcos não é coincidência. Em suas pesquisas sobre o primeiro cangaceiro, Marcos descobriu que Lucas “pertenceu” à sua família, na condição de escravizado. O padre José Franco era seu parente.

“Ao analisar a dissertação de mestrado sobre Lucas da Feira e a família que o escravizou, da professora Zélia Lima, encontrei diversos indivíduos com o meu sobrenome, o que me impulsionou a ampliar minha investigação. Através do estudo de inventários de ascendentes e descendentes do alferes e do padre José Alves Franco, deparei-me com o nome Félix Alves Franco, que inclusive é citado na tese da professora Zélia como descendente dos ‘senhores’ de Lucas da Feira. Félix é meu pentavô”, revela.

Lucas da Feira, um dos primeiros cangaceiros do sertão

Sant’anna da Feira, Terra de Lucas, quadrinho premiado de Marcos Franco (roteiro) e Hélcio Rogério (arte). Crédito: Divulgação

Servidão e rebeldia

Enquanto a Bahia e o Brasil fervilhavam com a independência e a outra feirense Maria Quitéria expulsava os portugueses do solo baiano, Lucas trabalhava como escravizado na fazenda Saco de Limão. Ao menos até decidir largar a servidão para adotar o banditismo na fagulha da moral sertaneja. “Por volta de 1828, Lucas respondeu aos anseios de liberdade e fugiu do domínio senhorial para as imediações da Vila de Feira de Sant’Ana. Após esse ato, foi tornado criminoso conforme as Ordenações Filipinas, que determinavam a fuga uma transgressão condenável pela lei penal por ser uma ação contra o direito à propriedade”, escreveu Eliane de Jesus Costa, na sua tese de mestrado ‘Lucas da Feira: dito, mal dito e as narrativas editadas’. A pena era a morte, pelo simples fato de sair da condição de escravo.

Contudo, na fuga, ele não procurou quilombos para seu refúgio. Passou a desenhar os moldes que se tornaram o cangaço que conhecemos. Ou seja, ao invés da defesa, Lucas foi ao ataque, com uma linha ofensiva formada por outros escravizados, como Flaviano, Nicolau, Bernardino, Januário, José Cazumbá e Joaquim. Um deles acabou traindo Lucas, o que será abordado adiante. O primeiro cangaceiro passou a ser notório na época, mas a narrativa ao longo do tempo fez questão de apagá-lo do banditismo nordestino, uma forma de racismo estrutural também, pela sua condição.

“Aparentemente desconcertante em Lucas seria o longo período de 20 anos de criminalidade profissional a que se entregou […], período comparável apenas ao de Lampião e Silvino. […] O desconcerto, porém, é apenas aparente, uma vez que a situação de escravo paira acima desse condicionamento de fundo mesológico. A perspectiva de ascensão social para o escravo era sempre a mesma, ou seja, pouca ou nenhuma. E o poder de atração exercido pela via criminal sobre o então oficialmente chamado ‘elemento servil’, decorrentemente o mesmo”, escreve Frederico Pernambucano, no livro Guerreiros do Sol, um best seller quando o assunto é cangaço.

Também pesquisador do cangaço e de fenômenos históricos do Nordeste, o escritor e jornalista Robério Santos defende o protagonismo de Lucas e seus atenuantes que podem ter trazido o esquecimento histórico como consequência. “O apagamento de Lucas da Feira passa muito pelo contexto da época: ele era um homem escravizado fugido, num período em que a história oficial silenciava figuras negras e marginalizadas. Em minha cidade, Itabaiana, existiu um escravizado de nome Mata Escura, que agiu aos moldes de Lucas da Feira e só foi redescoberto quase 150 anos após sua execução na forca”, conta, mostrando outro escravizado que também foi cangaceiro em Sergipe.

Sabemos que 20 anos não são 20 dias. Dificilmente um escravizado da época, sem o acolhimento de quilombos, sobreviveria durante tanto tempo. Nem Cabeleira, que citamos acima, ficou tanto tempo no ofício. Só para ter uma ideia, após invadirem Palmares, Zumbi conseguiu fugir durante pouco menos de um ano até ser capturado, com as devidas proporções de importância no contexto histórico de cada um. Era muito difícil se manter tanto tempo sem ser pego. Muitos jornais da época chegaram a questionar a competência das forças de segurança baiana, sugerindo que o caso fosse resolvido no âmbito nacional.

É aí que entra o modus operandi de Lucas para ficar tanto tempo sem ser pego. Ele tinha alianças e estratégias para sustentar sua permanência no banditismo da região de Feira de Santana, morando no mato, como um nômade, mas reforçando alianças também. Alguns o tinham como Robin Hood, outros como um salteador sanguinário. Ele chegou a ser conhecido como o “demônio negro”.

“Há elementos de verdade nas duas imagens, mas também muita construção posterior. Lucas da Feira atuava com violência concreta, praticando roubos e ataques, o que ajuda a entender por que setores abastados o rotulavam como ‘demônio negro’, expressão carregada de medo social e preconceito racial. Já a ideia de um ‘Robin Hood’ permanece mais no campo da dúvida: nasce da tradição oral e de releituras populares que tendem a suavizar figuras marginais, mas não há provas consistentes de que ele roubasse de forma sistemática para beneficiar os pobres”, conta Robério, que reforça a ideia de que os próprios feirenses não tratam Lucas como o primeiro cangaceiro, mas como um bandido comum.

Faz sentido. Em 2010, um projeto de lei para batizar o nome de uma rua como Lucas da Feira, encabeçado pelo vereador Marialvo Barreto, foi sumariamente negado na Câmara de Vereadores da cidade. E nunca mais voltou a ser pauta.

Lucas da Feira, um dos primeiros cangaceiros do sertão

escritório de Nina Rodrigues, onde estão as cabeças de Antônio Conselheiro e Lucas da Feira Crédito: Robério Santos / acervo pessoal

Morte e esquecimento

Outro nome que foi crucial para a captura e morte de Lucas se chama José Pereira Cazumbá. Alguns documentos da época apontam-no como um ex-integrante do bando de Evangelista, mas o próprio cangaceiro Evangelista, em seu depoimento na prisão, disse conhecer o seu algoz apenas de vista, apesar de alguns estudos apontarem que os dois chegaram a ser compadres. Há um fato curioso também: na captura, Lucas da Feira assumiu tudo sozinho, sem apontar ninguém como comparsas. Ser X-9 não era o forte de Lucas.

Cazumbá teria entrado no bando após ser acusado de homicídio. Contudo, sob a promessa de indulto pelo crime, mais uma quantia em dinheiro, ele armou uma tocaia para Lucas da Feira, atingindo-o na mão esquerda com um tiro. Ferido e foragido no mato, Lucas da Feira acabou capturado no dia 28 de janeiro de 1848, motivo de festa no povoado que hoje conhecemos como Feira de Santana. Na prisão, teve seu braço esquerdo amputado por conta do ferimento na emboscada.

Curiosamente, só com a prisão Lucas se tornou oficialmente liberto da condição de escravizado. Não por bondade, vale salientar. “O artigo 28 do Código Criminal de 1830 determinava que o proprietário [do escravizado] seria responsabilizado pelos prejuízos causados pelo escravo e, estando Lucas sob a tutela da justiça, no dia 29 de janeiro de 1848 o alferes José Alves Franco protocolou a petição de desistência sobre o domínio e posse senhorial sobre o escravizado, abandonando-o para ser processado pelos seus atos, mas com a finalidade de não ser responsabilizado por quaisquer delitos que o escravizado viesse a ser acusado”, conta Eliane de Jesus.

Lucas chegou a ficar preso em Salvador, no Forte de Santo Antônio Além do Carmo, mas acabou condenado à morte. Foi enforcado em praça pública, em Feira de Santana, no dia 25 de setembro de 1849. Foi sepultado ao lado da Igreja Matriz, onde hoje há uma placa identificando o local de sua morte. Contudo, a história de Lucas não terminou aí, incluindo o racismo até da pseudo ciência. Seu corpo foi exumado e sua cabeça levada para estudos do médico Nina Rodrigues, onde ficou com o restante mortal do cangaceiro até o incêndio da Faculdade de Medicina da Bahia, em 1905.

“Esse fato se explica pelo contexto científico do período: a antropologia criminal tratava criminosos como objetos de estudo biológico. Assim, após a execução, a cabeça de Lucas foi incorporada ao acervo da Faculdade de Medicina da Bahia para análises de craniometria, como indicam textos da Gazeta Médica da Bahia. O mesmo ocorreu com Antônio Conselheiro. Ele não estava ali como personagem histórico, mas como exemplar de uma teoria hoje desacreditada, que buscava explicar o crime por traços anatômicos”, completa Robério, que encontrou uma foto rara do escritório de Nina Rodrigues, onde constam diversos crânios, incluindo os de Conselheiro e Lucas da Feira.

No seu relatório sobre a cabeça de Lucas da Feira, Nina Rodrigues relatou, de forma bastante racista, suas impressões: “O crânio de Lucas parece à primeira vista perfeitamente normal. Tem certamente caracteres próprios aos crânios negros, mas também caracteres pertencentes aos crânios superiores, medidas excelentes, iguais às das raças brancas. Será por que Lucas era mestiço? Mas Lucas era realmente um negro superior: tinha qualidades de chefe; na África talvez tivesse sido um monarca”, relatou Nina.

Ao menos no quesito reparação histórica, a Defensoria Pública da Bahia conseguiu dar um destino diferente a Lucas da Feira. Em 2019, a DPE promoveu um Júri Simulado, um projeto que realizava o julgamento de figuras simbólicas e relevantes para a história da Bahia e do Brasil. Acabou absolvendo Lucas, diferente da época. Foi um julgamento com todos os moldes da justiça atual e a defensora pública Fernanda Nunes teve a missão de defender o primeiro cangaceiro da história.

“O que mais me surpreendeu foi o imenso silenciamento e o medo que a nossa cidade ainda tem de encarar o passado. Durante a minha defesa, lancei os seguintes questionamentos: por que temos tanto medo da nossa própria história e a quem interessa todo esse silenciamento que nos escondeu a figura de Lucas por tantos anos?”, questionou Fernanda.

“Lucas foi um notável líder negro, filho de africanos escravizados, que fugiu do cativeiro e ousou desafiar a violência de todo um sistema escravagista em busca de sobrevivência e liberdade. Paradoxalmente, como já referi, percebi também que a população feirense nutre grande curiosidade pela real pessoa de Lucas da Feira, pela compreensão precisa da sua importância para a cidade”, completou.

Recontar a história de Lucas da Feira não é apenas resgatar um personagem esquecido, mas revisar os critérios que definem quem merece ser lembrado, independentemente da rotulação de bandido ou mocinho. Entre heróis ou bandidos consagrados e figuras apagadas, há um abismo que muitas vezes diz mais sobre quem escreve a história do que sobre quem a viveu. Mas uma coisa ninguém pode tirar: o cangaço pode até ter ganhado fama em outras terras, mas uma das primeiras faíscas de pólvora nasceu aqui, no solo fértil de Feira de Santana.

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